Por José de Alencar (1875)
D. Flor e Alina tinham passado adiante e já iam longe, a-pesar-da sujeição a que obrigavam seu pé leve e ágil para acompanhar a marcha lenta do capitão-mór. Atrás, mas em distância conveniente para não escutar a conversa dos donos da fazenda, seguia o ajudante.
O capitão-mór consertou ainda uma vez o chapéu armado, e retendo o passo, disse para a mulher:
— Não temos vaqueiro, D. Genoveva!
Depois do que, avançando o passo retido, continuou sua marcha para a casa. D. Genoveva, que esperara a continuação da confidência, animou-se então a perguntar:
— E o Inácio Góis?
— O Inácio Góis é um cangueiro; e mal pode consigo. Não viu o que sucedeu com a Bonina? Se lhe tivesse ido logo no rasto, como era sua obrigação, a novilha não havia de sumir-se. Mas êle nem conhece o gado de sua entrega! Pergunta-se-lhe por uma vaca, e o homem não faz senão encher as ventas de tabaco!
Contrariado e prevenido por causa do desparecimento da novilha que dera de mimo a D. Flor, o capitão-mór achara o vaqueiro em faltas que ainda mais o indispuseram.
— Desde que tivemos a desgraça de perder o Louredo, que o nosso gado anda à mercê de Deus, D. Genoveva. É tempo de pôr côbro a isso. O Inácio Góis nunca prestou nem mesmo para vaqueiro duma fazenda, quanto mais para nosso vaqueiro geral com o govêrno de todas as fazendas. Êsse lugar, nós os guardamos para o Arnaldo, que já está em idade de serví-lo; portanto, senhora, cuide com toda a presteza no enxoval da Alina, para casá-la quanto antes com o rapaz. É o que havemos resolvido.
O fazendeiro tinha parado para dizer estas palavras à mulher, cuja surpresa pintou-se-lhe no semblante.
— O Arnaldo? Mas êle não fugiu, sr. Campelo? interrogou a dona suspeitando que o marido tivesse esquecido aquela circunstância.
O velho voltou-se com ênfase para a mulher e disse-lhe fincando rijo no chão a ponteira de ouro de sua bengala:
— Há de aparecer e há de casar, que assim o determinamos, D. Genoveva.
D. Genoveva calou-se, e por algum tempo seguiu o marido silenciosamente; mas levado pelo fio das idéias, seu espírito passara a outro assunto, pois de repente voltou-se para perguntar ao marido:
— E Flor?
O capitão-mór refletiu antes de responder:
— Já temos pensado no seu futuro, D. Genoveva, disse o capitão-mór.
— Ela está com dezenove anos.
— Até os vinte não é tarde.
— Mas o noivo?
— Eis a dificuldade. Lembrámo-nos primeiro, de nosso sobrinho, Leandro Barbalho, de Pajeú de Flores. Agora com a vinda do Marcos Fragoso ao Bargado, estamos em dúvida, qual nos convenha melhor.
— O Marcos Fragoso, sr. Campelo, o filho do coronel? Acha que Flor pode casar com êle?
— Se formos a esperar que apareça um mancebo com dotes para merecer a nossa filha, D. Genoveva, ela não casará nunca, pois onde está êsse? Nem que vamos a Lisboa procurá-lo na melhor fidalguia do reino, acharemos um marido como nós o queríamos para Flor. Assim que temos de escolher entre o que há; e o Marcos Fragoso é dos poucos; as maldades do pai, êle não as herdou, com o grosso cabedal de sua casa.
— Diziam tanta coisa dêsse moço no Recife! observou D. Genoveva abaixando os olhos com o recato calmo de uma senhora.
— Rapaziadas que passam; quando for marido de Flor, êle não se atreverá a faltar-nos ao respeito; pois sabe que não lhe perdoaríamos o menor descomedimento.
— O Leandro sempre é parente.
— Mas não é tão abastado como o Marcos Fragoso; e não tem o seu porte fidalgo, respondeu o capitão-mór que era homem das formas.
Lá no campanário da capela, acabava de soar a primeira badalada do toque de ave-maria. O som argentino da sineta vibrando nos ares foi repercutir ao longe no borborinho da floresta, de envôlta com o mugir do gado e os rumores da herdade.
O capitão-mór parou, e descobrindo-se, pôs o joelho em terra para fazer sua oração mental. As pessoas de sua família o imitaram; e por toda a extensão da fazenda, a faina jornaleira interrompeu-se um momento. O carregador arreara o seu fardo; o trabalhador cessara o serviço; e todos de joelhos, com as mãos postas, rezaram a singela oração da tarde.
Ainda retiniam as últimas badaladas das trindades, quando longe, pela várzea além, começaram a ressoar as modulações afetuosas e tocantes de uma voz que vinha aboiando.
Quem nunca ouviu essa ária rude, improvisada pelos nossos vaqueiros do sertão, não imagina o encanto que produzem os seus harpejos maviosos, quando se derramam pela solidão, ao pôr do sol, nessa hora mística do crepúsculo, em que o eco tem vibrações crebras e profundas.
Não se distinguem palavras na canção do boiadeiro; nem êle as articula, pois fala ao seu gado, com essa outra linguagem do coração, que enternece os animais e os cativa. Arrebatado pela inspiração, o bardo sertanejo fere as cordas mais afetuosas de sua alma, e vai soltando às auras da tarde em estrofes ignotas o seu hino agreste.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.