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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Que diabo! temos assim uns encontros, que melhor caberiam a dois ladrões, ou a dois namorados.

O guarda-portão sorriu e levantou os ombros, como quem queria dizer: – que nos importa?

– Conversemos, disse o recém-chegado: que novidades há?

– Que mau costume! murmurou Rodrigues; falas sempre com voz tão alta!

– Pois então que há?...

– Apenas um curioso que nos espreita.

– E onde está então essa peça?

Rodrigues apontou para Jacó, que fingia ressonar.

– Ora... é um pobre mendigo.

– Cala-te; é nada menos do que o celebre Jacó, que em outro tempo conheceste bem, e que hoje é meu vizinho, e tomou por sua conta espreitar todos os meus passos.

– Ui!... pois deveras?...

– Sem a menor dúvida.

– Vamos pô-lo dali para fora a pontapés.

– Para quê? basta que falemos baixo. Tenho pouco que dizer-te.

– Tens razão, tanto mais que me suponho em vésperas de tomar de novo conhecimento com ele.

– Como?...

– Vi-o entrar o mês passado lá em casa.

– E com que fim?...

– Não sei, mas hei de sabê-lo.

– É preciso.

– Vamos ao principal: conta-me o que há.

– Sim, porém torno a dizer-te que fales mais baixo.

Jacó não tinha até então percebido uma só palavra; apenas lhe chegava aos ouvidos um leve ruído; mas daí por diante ainda menos do que isso ouviu. João e Rodrigues eram para ele como dois mudos sentados ao lado um do outro. Arrependeu-se de haver seguido o velho guarda-portão, e a posição incômoda que tomara era como um castigo de sua insana curiosidade.

Os dois velhos amigos começaram a falar um com o outro em voz muito baixa.

– Então o que há?... repetiu João.

– Realizam-se minhas previsões.

– Amam-se?...

– Ele, como um louco, como um rapaz de vinte anos, que ama pela primeira vez.

– E ela?...

– Ou já o ama também, ou está em muito bom caminho para chegar a isso.

– E já sabe que é amada?...

– Creio que o pensava desde alguns dias; ontem porém teve a certeza de o ser.

– Quem lhe revelou o segredo?...

– Este seu criado.

– Bravo, sr. Rodrigues; está representando um excelente papel.

– Pois que querias tu que eu fizesse, João?... duas crianças tolas como eles são precisavam de quem lhes abrisse os olhos. E, sobretudo, não é verdade que convém terminar os nossos trabalhos? não crês que basta de provação?...

– Eu não te crimino, Rodrigues; ao contrário acho que tens ido às mil maravilhas; tanto mais que dois trastes velhos como nós, devemos dar graças a Deus por podermos ainda prestar para alguma coisa neste mundo.

– Enfim eles se amam, repetiu Rodrigues.

– Era natural.

– Temos porém novidades cem vezes mais importantes.

– Vamos lá.

– Realiza-se também a minha última previsão: o outro igualmente a ama.

– Oh diabo! o caso vai-se complicando; e ela?

– Despreza-o.

– Está no seu direito. E ele teima?...

– Faz mais do que isso.

– Então o quê?

– Quer impor-se. – Como?...

– Ora como!... pois não adivinhas?... com a misteriosa influência que exerce sobre a viúva.

– Quando eu digo que o caso se vai complicando!

– Ontem o velho e a menina saíram a passeio. A viúva arranjou uma dor de cabeça, e deixou-se ficar em casa; daí a pouco chegou ele.

– Bem; e depois?

– Fecharam-se na sala, e conversaram uma hora.

– E tu?...

– Ouvi tudo.

– Bravo! és um herói.

– Ele exigiu que a viúva fechasse a porta do “Céu cor-de-rosa ao pobre rapaz.

– Por quê?...

– Porque suspeita que a pequena o ama, e não quer ter um rival tão perto dela.

– E a viúva?

– Negou-se a cumprir a exigência.

– E ele?...

– Declarou-lhe formalmente que se ela não a cumprisse, perdê-la-ia no conceito público.

– E finalmente...

– Separaram-se sem haver decidido coisa alguma.

– E o que concluis tu do que se passou?...

– Que dentro em pouco as portas do “Céu cor-de-rosa” serão fechadas ao moço pobre.

– E nada mais?...

– Concluo também que o outro sabe pelo menos metade do que nós sabemos.

– Ainda bem que ele sabe só metade; creio que não gostará quando vier a saber o resto.

– João, para mim é claro que a – décima segunda – existe em poder dele.

– É realmente a melhor maneira de explicar aquela misteriosa influência. – E tu, nada absolutamente tens conseguido?

– Nada.

– É pena; porque enfim, pode ser que essa arma com que ele joga, acabe por fazer muito mal ao nosso plano.

– Que queres?... tenho trabalhado muito; mas sempre em vão. Já corri e examinei um por um, todos os papéis da casa.

– E nada?...

– E nada; falta-me só a carteira velha do defunto.

– Quem guarda as chaves?..

(continua...)

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