Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Ser levado a Niterói pelo senhor ou por ele, disse Hugo, contanto que vamos lá ter com prontidão e salvamento é para mim indiferente.
— Lá isso não tem dúvida, meu amo; eu conheço a baía do Rio de Janeiro como as palmas de minhas mãos.
— Pois então, ao largo!...
O batel soltou-se e navegou para a jovem capital da província do Rio de Janeiro.
Honorina tinha encarado o patrão e examinava seus rudes trajos, sua cor vermelha e tostada e dois olhos vivos, e na verdade belos, cujas vistas, sem expressão sim, mas certamente brilhante, eram por desleixo do marinheiro meias nubladas pela enorme massa de longos e maleducados cabelos pretos, que lhe caíam toscamente sobre os olhos.
O exame da moça pareceu incomodar ao rude patrão, que começou por coçar com força as bastas e crescidas barbas, que lhe escondiam três partes do rosto (único ponto de contato, ou antes de semelhança que, no opinião de Honorina, se dava entre ele e alguns dos jovens da moda, com quem acabava de estar no sarau); mas como visse que nem assim a jovem arrancava os olhos de sobre ele:
— Juro, disse, que estou incomodando a senhora com o fumo do cigarro...
— Não, não, respondeu a moça, pode fumar: é verdade que me dou mal com o cheiro do fumo; mas agora o vento, que sopra, o leva para longe de nós.
— Como estava olhando para mim há muito tempo, eu pensei que era por isso... e, pelo sim pelo não, cigarro na água.
E atirou com o cigarro no mar. Os pretos que remavam começaram a conversar em seu selvagem idioma, e riam-se maliciosamente.
— Ó lá... bradou o patrão com voz estrepitosa, seja como for, quem manda aqui agora, sou eu... leva de risadas!
Sua voz áspera e rude tinha tomado um tom bravio; seu rosto exprimia algum sentimento mais forte do que o que nasce de uma contrariedade: em seus traços quase que transpirava a cólera.
Honorina teve receio desse homem, e arrependeu-se de haver olhado para ele.
— Perdoe-me, disse ela com voz trêmula, perdoe-me! quando eu olhava para o senhor, não o queria ofender!...
E olhou, como que implorando proteção para seu pai, que havia insensivelmente adormecido. Ela teve o pensamento de despertá-lo; porém sua mão, que para isso ia tocar nele, caiu-lhe de novo no colo, ao escutar outra vez a voz do marinheiro.
O receio... talvez o susto da bela passageira não tinha escapado aos olhos vivos e ardentes do jovem marítimo; seu rosto grosseiro se ameigou um pouco, como o leão que se curva apiedado diante da fraqueza e da inocência; ele abaixou, e fez mesmo por adoçar um tanto sua voz agreste e disse:
— Fui eu que ofendi a senhora com esta minha fala bruta; assustei-a; a senhora olhava para meu rosto e viu a cara de um bicho... depois ouviu minha voz, como o uivo de uma fera, e teve medo!... perdoe-me!... perdoe-me!... tirando disto, eu não sou mau.
— Senhor... eu não estou ofendida...
— Descanse... olhe seu pai como dorme; porque me parece que este homem é pai da senhora... durma também...
A moça obedeceu maquinalmente ao conselho do marinheiro; encostou o lindo braço todo nu na borda do batel, e, pousando sobre ele a cabeça, fechou os olhos.
Mas Honorina não queria nem podia dormir: primeiramente as últimas palavras do patrão não tinham totalmente dissipado todos os seus receios; quem sabe por que desejava ele que ela dormisse?... o pensamento de que aquele homem poderia ser um malfeitor... um ladrão talvez, apareceu em seu espírito; mas, temendo desafiar outra vez sua cólera, se patenteasse a desconfiança que sentia, acordando seu pai, ela fingiu adormecer; porém o jovem marinheiro continuava a mostrar-se sossegado e já respeitoso; e quando falava aos remeiros, sua voz parecia abrandar-se de modo que semelhava menos uma ordem, que uma súplica. E, pois, as idéias desfavoráveis, que sobre ele tinham aparecido no ânimo de Honorina, começaram a esvair-se pouco a pouco.
Depois, pode uma jovem senhora voltar de um agradável sarau sem pagar o tributo das lembranças?...
Perguntai a toda essa bela turba de moças e mancebos o que se passa durante o resto da noite que se queimou na pira dos prazeres de um sarau, e a uma voz vos responderão: “ah! recorda-se, se se vela!... sonha-se... quando se consegue dormir”.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.