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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Francisco José da Costa foi chamado urgentemente para visitar um senhor conde hospedado em Monte Alegre.

― Conde de quê? – perguntou Ângela, curiosa de saber que titular subia as montanhas de Barroso em busca de seu marido.

― Conde de Gondar – disse o enviado.

― De Gondar? – observou Ângela ao marido. – Cuidei que só havia o Paço de Gondar de meu pai!

Ora, Francisco não lia gazetas, nem sabia que o general Noronha passasse a titular. Não ponderou por isso a observação da esposa, nem inquiriu a procedência do conde.

Chegou à casa nobre de Monte Alegre.

Levaram-no à presença dum ancião cego, de aspecto cadavérico e tocantemente amargurado.

Costa examinou-o em breve espaço, e perguntou:

― Senhor conde, há que tempo começou o seu padecimento de olhos?

― Há nove anos. Estava eu em Paris a tratar-me de nevralgias de cabeça.

― E quando cegou completamente?

― Há dois anos, tendo voltado a Paris para consultar de novo os especialistas.

― Disseram a vossa excelência que era catarata negra a cegueira?

― Juntamente; mas era intempestiva a operação. Depois, cá em Portugal, dois facultativos que consultei não votaram pela operação: um deles pendia a crer que a minha cegueira fosse paralisia.

― É catarata negra – disse Francisco Costa.

― Pode operar-se? – perguntou o conde, agitado.

― Pode, senhor conde.

― Vossa senhoria tem esperanças?

― As que pode ter-se em operatória.

― E espera dar-me vista?

― Espero, creio que vossa excelência verá.

― Feliz hora em que este amigo que está a meu lado me levou a Ponte do Lima a notícia de vossa senhoria! – exclamou o conde.

― O senhor conde de Gondar – disse o cavaleiro de Chaves ao operador – é o bem conhecido general Simão de Noronha.

Costa fitou o semblante do cego, e baixou maquinalmente a cabeça.

O apresentante prosseguiu:

― Eu tinha visto dois prodígios de vossa senhoria, e assim que soube dos padecimentos de sua excelência, animei-me a solicitar a sua vinda com grande confiança na perícia do senhor doutor.

Agradeço a vossa excelência a confiança imerecida com que honra o pouco que sei e valho. Onde quer ser operado o senhor conde?

― Se fosse possível, na terra onde vossa senhoria reside – respondeu o cego.

― Nas Boticas não creio que haja casa capaz – observou Pizarro.

― Há – contradisse o cirurgião.

― Sim? – acudiu o conde.

― É a minha – tornou Costa. – Se vossa excelência quiser...

― Quero, meu Deus, quero; nem posso querer outra coisa, e desde já lhe aperto as mãos com o mais sentido reconhecimento – disse o velho com alegria.

― Não pode hospedar-se melhor – confirmou o parente.

― A casa é de aldeia – tornou Costa, sorrindo – mas, enquanto o senhor conde for cego, dispensa o luxo dos ornatos; e, depois que tiver vista, irá para sua casa. O essencial é que vossa excelência tenha um leito, um cirurgião a ponto, e pessoas que o sirvam. Isso lhe ofereço.

― Não ouso dizer a vossa senhoria que remunerarei o que é remunerável – disse o conde -; mas o maior número dos seus favores não se retribui a dinheiro.

― O dinheiro nestas aldeias, senhor conde – volveu Francisco – não é extremamente apetecível, porque faltam cá, ainda bem, as tentações que o encarecem.

― Não sei – refletiu o general – como um facultativo de tanto merecimento se aclimatou em Barroso! ― À procura duma subsistência parca, bastantíssima à felicidade doméstica.

― Então é aqui feliz?

― Mais do que dizem que se pode ser neste mundo.

― É o primeiro homem que me responde isto! – maravilhou-se o general, volvendo a cabeça para o lado onde sentia gente. – Nunca foi infeliz?

― Fui apenas infeliz trinta e um anos.

― E quantos tem?!

― Trinta e três, senhor conde.

― Então a sua felicidade é recentíssima! Encontrou-a aqui?

― A perfeita, a inexcedível encontrei-a em Barroso.

― Tem família?

― Mulher, um filho e uma irmã.

― São as delícias da sua vida!... não são?

― Certamente... – respondeu Costa, espantado do tom dulcíssimo com que abemolara aquelas palavras a selvagem índole do pai de Ângela, e do amante de Maria d’Antas.

― Eu também fui casado – tornou o cego – e amei extremosamente minha mulher, que morreu de dor instantaneamente quando me viu ferido de morte em batalha. Compreendo esse sublime e sagrado amor de marido...

― E de pai?... Não tem vossa excelência a boa fortuna de ter filhos?

― Não... não tive... – balbuciou secamente o conde, e declinou a direção da prática, perguntado:

― Quando quer vossa senhoria que eu vá para a sua hospedeira casa?

― Amanhã, querendo vossa excelência. Hoje mando dar algumas ordens ao aposento que o senhor conde vai honrar.

(continua...)

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