Por Lima Barreto (1922)
Este método é muito usado na guarda nacional e poucas outras entidades (vocabulário do football) militares. Vamos ver em que consiste.
Um tal método tem por princípio básico só admitir à promoção, oficiais que nunca tenham visto soldados, fortalezas, quartéis, etc.
Por esse processo, estão fatalmente eliminados todos os oficiais que hajam servido em guarnições longínquas.
O mais relevante conhecimento exigido, para as promoções de acordo com esse processo empírico, é o de uma perfeita sabedoria nas marcas de papel de ofícios, de grampos, colchetes e alfinetes, para papéis. Contam-se como ultrameritórios os serviços pacíficos em linhas telegráficas, em leitura de pluviômetros, em conversas com bugres filósofos e em construção de estradas de ferro que não acabam mais.
Em caso de merecimento igual, entre os candidatas, promovido será o que tiver melhor "pistolão".
Para isso, o oficial precavido não se deve afastar da capital do país; e, nela, sempre cultivar a amizade de poderosos políticos e pessoas de seu amor e amizade; e é, por isso, que os oficiais que servem em guarnições longínquas, fronteiras, etc., não podem entrar na lista das promoções, determinação que se subentende nesse sistema empírico que a sabedoria dos tempos consagrou com alguns retoques. Não falei nas promoções nos bombeiros. Emendo a mão. Nos bombeiros — corporação reduzida — as promoções devem ser feitas em família. É o melhor.
O que acabo de dizer, são como o croquis das minhas idéias sobre promoções nas classes armadas, sendo que algumas não me pertencem propriamente, antes a todos os militares, suas mulheres, filhas e noivas. Eis aí.
Capitão Ortiz y Valdueza (Do Exército da Bruzundanga).
Reconheço a rubrica supra e a letra do Capitão Ortiz y Valdueza, do Corpo de Submarinos do Exército da República os Estados Unidos da Bruzundanga. (Tenho o sinal público e, à margem, "grátis"), — O COPISTA.
Careta, Rio, 29-1-21.
Rejuvenescimento
(Crônica Militar)
"Todas as medidas esperadas para resolver o problema do rejuvenescimento dos quadros do Exército, das discutidas no Congresso, não conseguiram sair do campo das discussões.
Rejuvenescer os quadros não significa somente melhorar o futuro dos oficiais; é concorrer para que não reine o desânimo para que seja mantido o ardor profissional.
Não é possível esperar dum oficial que moireja de seis a oito anos em cada posto, que ele tenha sempre o mesmo entusiasmo que a própria idade consegue arrefecer.
E com a idade vem naturalmente a diminuição do vigor físico exigido para o desempenho do árduo trabalho de oficial de tropa."
É assim que se exprime sabiamente um jornal desta cidade. Estamos de pleno acordo com as opiniões do nosso colega diário; mas julgamos, no nosso humilde parecer, que ele só encara uma face do problema. É nossa opinião que essa questão de rejuvenescimento, é uma questão geral e interessa, não só aos militares, como também a outras classes da sociedade.
Que ardor profissional pode ter um carpinteiro que tem cinqüenta anos de idade e trabalha no ofício desde os dezesseis?
A sua obra há de se ressentir da fadiga dos seus músculos cansados e do desinteresse que traz a monotonia de fazer durante anos a mesma tarefa. A sociedade perde muito com isso, pois os seus trabalhos não terão a perfeição que havia nos que executava com trinta anos de vida.
Seria inútil repetir exemplos como este, pois eles estão aí aos pontapés, para mostrar o quanto é indispensável decretar medidas que rejuvenesçam os quadros de todas as profissões.
Para as funções públicas, inclusive as militares, já o célebre filósofo político-militar dinamarquês, Hans Reykavyk propôs dois métodos para obter o remoçamento dos quadros:
Um, aparente meramente, e de origem feminina; o segundo substancial e rigorosamente científico.
O primeiro método se baseia nas pinturas, pomadas e massagens. Não há negar que o seu emprego, quando executado por operador hábil, dá ao indivíduo que a ele se sujeita a aparência de mocidade; mas é só aparência e não restitui a quantidade de força vital que o indivíduo perdeu com o correr dos anos. De resto, ele ia levar para a caserna hábitos de camarim de atriz.
A guerra em si mesma nada tem de teatral; só acham essa cousa nela os pintores de batalhas que recebem encomendas dos governos, e os literatos da moda.
A guerra em si é uma cousa brutal
e horrendamente ignóbil; a única consideração que rege a batalha, se há uma,
está na cabeça de quem a dirige, e isto não é matéria para tela, nem para
páginas literárias, mas notas e riscos numa carta topográfica, em escala
conveniente com convenções adequadas.
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.