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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Entende de alguma coisa?

— Entendo. Tenho até idéias especiais sobre a pecuária.

— Quais?

— Penso em criar porcos do tamanho de bois e bois que cheguem a elefantes.

— É maravilhoso! Como você procede?

— É uma questão de alimentação. As plastidas... Enfim: processos bioquímicos, já experimentados em outras partes, que aperfeiçoei.

— Bem, Doutor. Vou recomendar você ao Xandu e lá você expõe as suas idéias.

Redigiu a carta com grande desembaraço e segurança; e Bogoloff saiu com uma recomendação eloqüente e persuasiva. No mesmo dia não procurou Costale, o Xandu; Bogoloff quis degustar a maravilhosa impressão que recebera da meditação política. Se fosse ao ministério talvez ela se obliterasse. procurou-o ao dia seguinte na sua catita Secretaria de Estado.

Esperou um pouco na ante-sala com pretensões a luxo e majestade. Havia um busto de Floriano e pelas paredes, em telas médias, um prematuro retrato de Bentes e o de uma senhora, D. Anita Garibaldi, certamente uma glória italiana. Uma coleção de litografias ocupava grande parte de uma parede; eram os retratos dos ministros passados.

Pelas cadeiras, havia aquela fisionomias tristes das ante-salas dos ministérios. Pobres e remediados, pretos e brancos, mulheres e crianças, moços e velhos, todos compungidos, incertos, esperavam a graça do Estado quase divina. Uma atmosfera de angústia.

Os contínuos e oficiais de gabinete passavam sem pousar o olhar sobre nenhum dos circunstantes; gordos e bem trajados senhores surgiam por debaixo dos reposteiros e atravessavam a sala sorridentes; as campainhas soavam constantemente. Mme. Forfaible ondulante, encerrada no seu vestido impecável, apareceu por entre um reposteiro e foi acompanhada até a porta de saída, por um secretário do ministro.

Bogoloff pode ouvir que ela dizia:

— Os paisanos são muito felizes; nós não temos disso... Meu marido...

E afastou-se não deixando que o russo pudesse ouvir o resto da frase. Bogoloff não estava mal vestido. Tinha adquirido uma sobrecasaca de sarja preta, um colete e calça da mesma fazenda, trazia a barba curta e usava chapéu de feltro. Não se separava do chapéu de chuva; e julgou sempre que esse objeto dá aos brasileiros um aspecto de respeito e ponderação. Começou a perceber que não seria tão cedo atendido e fez sua corte ao contínuo porteiro. Já desanimava, quando os seus olhos deram com Inácio Costa.

— Oh! Doutor! Que há?

— Precisava falar a S. Exa.

— Pois não... Entre! Estamos na democracia; os conselheiros já se foram. Estou no gabinete deste ontem.

O contínuo afastou-se; eles passaram e Bogoloff foi à presença de Xandu.

Sentava-se o ministro a uma mesa alta, ampla e torneada, inteiramente coberta de papéis, de livros. Nas suas costas, ainda um retrato de Floriano e, ao lado, a uma mesa menor, o secretário que conversava com um oficial do exército.

Acolheu-o Xandu com uma certa frieza, mas, desde que leu a carta, fez-se prazenteiro e amável:

— Oh, Doutor! Desculpe-me! Desculpe-me! Já me havia esquecido do senhor... Não sabe como ando atarefado. Hoje já assinei 1.557 decretos... Sobre tudo! Neste país está tudo por fazer! Tudo! Em dias, tenho feito mais que todos os governos deste país! Já assinei 2.725.852 decretos, 78.345 regulamentos, 1.725.384.671 avisos... Um trabalho insano! Fala inglês?

— Não, Excelência.

— Eu falo. Desde que o falei com desembaraço, as minhas faculdades mudaram. Penso em inglês, daí me veio uma salutar reação que me interessou todo inteiro. Gosto muito de inglês, com sotaque americano. Experimente... Nascimento! (gritou para o secretário) já temos aquele regulamento sobre a “postura” das galinhas?

Respondeu-lhe o secretário e voltou-se para o russo febril, nervoso:



(continua...)

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