Por Aluísio Azevedo (1895)
Do meio para o fim do jantar, jantarzinho de hotel, porque nesse dia ainda não se havia acendido o fogão da casa, ele se mostrou menos pessimista a respeito do amor das mulheres e mais disposto a corresponder com os carinhos ao sacrifício de Leonília; entretanto, quando esta lhe falou em viverem juntos, Teobaldo protestou energicamente - Não! Isso não era possível!
Ele tinha lá as suas aspirações, precisava fazer carreira e não estava resolvido a começar com o pé esquerdo.
- És um ingrato!... queixava-se ela, enxugando as lágrimas. És um ingrato! Até aqui fugias de mim, Porque eu não era só tua; pois abandono tudo, venho meter-me neste canto e tu, mesmo assim, declaras abertamente que não queres morar comigo!... Oh! isto também é demais! Já passa à maldade!
- Não, filha; é impossível morarmos juntos! Não posso. Hei de aparecer-te de vez emquando, sempre, talvez todos os dias, mas...
- És um homem mau, um egoísta.
E multiplicaram-se as recriminações. Afinal Teobaldo, apesar do firme propósito em que estava de muscar-se depois do jantar, resolveu não ir; ficou.
- Também que diabo! seria crueldade deixá-la ali, naquela casa, em companhia de um criado admitido na véspera.
E de mais, pensava ele, que posso eu recear?... Quando a coisa se torna perigosa, mando-a plantar batatas!
XII
Voltou de lá As três horas da tarde do dia seguinte.
- Mais um dia perdido! considerava ele amargamente ao entrar em casa já ao cair da noite e depois de ter jantado em companhia de amigos.
Ainda no corredor foi detido pelo Coruja, que lhe disse com reserva:
- Acho bom que não subas agora! Aquela sujeita do Almeida, a Ernestina, está aí A tua espera. Não subas!
- Está aí? perguntou Teobaldo deveras contrariado. Que diabo quer ainda de mim essa mulher?
- Não sei; diz o Caetano que ela já aí está há quatro horas.
- Ora esta! E, logo hoje, que eu precisava dormir!
- Recolhe-te mais tarde; ela talvez não se demore.
- Qual! Vou despachá-la! Verás!
E, enquanto subia a escada acompanhado pelo amigo:
- Não faltava mais nada!... Estou mesmo muito disposto a aturar mulheres!... Já me bastam as maçadas que me dão as outras! Além dela ninguém me procurou?
- Depois de eu chegar, não.
Teobaldo tinha por costume perguntar sempre se alguém o procurara na sua ausência. É que esperava que a fortuna viesse um belo dia ao encontro dele, como vinham as mulheres; era uma espécie de vaga confiança no acaso; um modo preguiçoso de desejar ser feliz.
Assim, quando pilhava dinheiro, arriscava algum na roleta ou na loteria.
Foi de mau humor que ele entrou na sua pequena sala, abriu a porta com um empurrão e dirigiu-se de cara fechada para a rapariga, que o esperava. - Teobaldo! exclamou esta, querendo lançar-se-lhe nos braços.
- Perdão! disse o perseguido, afastando o corpo. Não estou disposto a dar abraços; venho incomodado. Faça o favor de dizer o que deseja, mas que seja breve!
- Oh! não te reconheço! Não pareces o mesmo!...
- Diz muito bem! Eu com efeito já não sou o mesmo. Grandes transformações se deram na minha vida. - Adiante!
- Compreendo; é que amas a outra!
- Ai, ai, ai, minhas encomendas! gritou o rapaz, sem poder dominar a impaciência. Teremos ainda discussões sobre o amor? Mas, minha senhora, há uma porção de dias que não ouço falar em outra coisa! Estou farto! o que se pode chamar farto! Oh!
Ernestina pôs-se a chorar.
- Então, então! resmungou ele; deixe-se de asneiras e diga o que a trouxe.
- Ah! já não me posso iludir; amas a outra!
- Engana-se! Não amo mulher alguma!
- Nem a mim?
- Mas que lembrança foi essa a sua de vir aqui? Há mais de dois anos que nos separamos, creio que sem protestos e sem juramentos!... E vê-la assim, sem mais nem menos, tirar-se dos seus cuidados e...
- É que então eu não era livre, não podia acompanhar-te: vi via meu marido!
- Marido?
- Sim. O Almeida afinal enviuvou, casou-se comigo, e três meses depois faleceu nosmeus braços.
- Que não casasse... respondeu Teobaldo, rindo.
- És cruel!
A mesma frase da outra, pensou ele, com um suspiro de tédio.
Ernestina circunvagou os olhos em torno de si, para certificar-se de que estava a sós, e acrescentou:
- Um dia ofereceste-me a tua proteção, não é verdade? Venho reclamá-la...
- Sim, mas é que os tempos se mudaram; já não tenho com que proteger ninguém, nem a mim mesmo! Estou na espinha!
- Teobaldo! eu não vim pedir-te esmola!
- Então diga o que veio pedir.
- Vim em busca de amor! Para esquecer-me de ti fiz o que era possível; nada consegui e cá estou, disposta a afrontar o último sacrifício, contanto que fique ao teu lado. Amo! e, dizendo isto, tenho dito tudo!
- Sim?... perguntou o rapaz, apertando os olhos. Mas não me fará o obséquio de dizer que culpa tenho eu disso?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.