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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

E assim abraçados, quedaram eles inconscientes, enquanto a aurora vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos como que a sondarem a profundidade das trevas; enquanto os pássaros chilreavam à surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto, enquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas das grandes árvores e suspendendo, às das rasteiras plantinhas, gotas que cintilavam já como diamantes.

Ao longe, à beira de algum rio, as aracuãs levantavam a sonora grita, e o macauã atirava aos ares os pios prolongados da áspera garganta.

—É dia, observou Inocência desprendendo-se dos braços de Cirino.

—Já! exclamou este amuado.

—Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa... vou-me embora...

—Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.

—Sim...

—E na semana que vem, estou de volta...

—Pois bem... Leve com mecê esta certeza; a minha vida ou a minha morte depende do padrinho...

—A minha também, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de Inocência...

—Deixe-me... deixe-me, implorou ela. Adeus, estou com um medo!... Felizmente ninguém me viu...

Nesse momento e, como que para responder à asseveração, de dentro do pomar partiu aquele fino assobio que tanto assombrara os amantes na primeira das suas entrevistas.

Inocência quase caiu por terra.

—Meu Deus! balbuciou ela, que agouro!... Quem sabe se não é gente?

Ao assobio seguiu-se uma espécie de gargalhada, que gelou o sangue nas veias dos dois míseros.

Agarrou-se a menina a Cirino.

—É alma do outro mundo, murmurou ela persignando-se.

Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o sinal-da-cruz na direção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi depô-la junto à porta da casa, porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.

Quase desmaiara Inocência entretanto, reunindo as forças pôde entrar, e cautelosa correu o ferrolho interior.

Mais sossegado a esse respeito, voltou Cirino ao laranjal e, como da primeira vez, pôs-se a percorrê-lo em todos os sentidos, indagando, à nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem dele parecia fazer joguete.

No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu de repente certa massa informe cair-lhe quase na cabeça e no meio de folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angústia.

—Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.

E, como uma visão, passou-lhe por perto uma criaturinha, desaparecendo logo entre os troncos das árvores.

Ali esteve Cirino com os cabelos eriçados, os olhos fixos, os braços hirtos de terror, os lábios secos a tartamudear um exorcismo, e as pernas a tremer.

Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.

Era Pereira; com a mão encostada a boca, interpelava a um dos seus escravos.

—Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala não pega... Se for gente, melhor.

E um tiro troou.

Sibilou uma bala aos ouvidos de Cirino, indo cravar-se numa árvore próxima.

Por outra, não esperou ele. Com o favor da escuridão que ainda reinava, deslizou rápido e foi buscar a frente da casa, quando já iam acordando os camaradas.

Mal chegara a sala, apareceu-lhe Pereira à porta.

—Que foi isso? perguntou Cirino compondo a fisionomia.

—Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de medo. Desconfio que a alma do Coletor andou hoje me rondando a casa... Não seja presságio de mal... A Senhora Sant'Ana nos proteja.

—Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cirino; acordei com um tiro...

—Não há de poder enfiar outra soneca daqui a um nadinha, está o sol batendo no terreiro.

Com efeito, depressa caminhava o alvorecer, e debaixo daquelas vivas impressões acordaram aqueles que haviam conciliado o sono, na morada de Pereira.

CAPÍTULO XXIV

A VILA DE SANT'ANA

Debaixo do céu há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatórios, mentiras e bisbilhotices.

(Lavergne).

Nesse mesmo dia, montou Cirino a cavalo e despediu-se de Pereira por uma semana ou pouco mais, dando por motivo de tão inesperada viagem, não só a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão também procurar, quer na vila, quer mesmo nos campos da província de Minas Gerais, uns remédios e símplices que lhe iam faltando.

—Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.

Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e agradável a estrada, que essas três léguas lhe foram muito fáceis de vencer.

Ali, porém, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de quatro léguas, até a Vila de Sant'Ana tornam penosa a viagem, sobretudo quando são percorridos sob os ardentes raios do sol do meio-dia.

Exaltam-se e irritam-se os incômodos do espíritos, no momento em que o físico começa a sofrer.

(continua...)

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