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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Ele estava na realidade comovido até as entranhas. Superexcitado pela falta de alimentação, pelo cansaço da jornada, pelo calor do dia, pelas recordações que o afligiam de envolta com o remorso incipiente, via a cada canto a terrível visão reproduzida na clareira, na selva, nos ares, finalmente em toda parte aonde volvesse os pávidos olhos.

— Eu te ensinarei — redargüiu Luisinha. — Dize comigo.

A moça principiou então em voz alta o Padre Nosso.

A voz do bandido, ao princípio titubeante e temerosa, foi-se pouco e pouco animando, e elevando.

Quando houverem de passar à Ave Maria, o Cabeleira tinha já os olhos pregados na cruz, e a fé, que começava a germinar em seu espírito, elevava-o insensivelmente a regiões desconhecidas, onde, sem que ele pudesse explicar como, lhe davam a respirar confortos que só podiam ser celestiais. Da Ave Maria passaram à Santa Maria e desta à Salve Rainha.

Em cada uma das palavras destas orações achava o bandido uma beleza nova e insinuante que lhe despertava delicioso sentir.

Seu espírito, que durante vinte anos só conhecera idéias de sangue e morte; seus ouvidos, afeitos a escutarem palavras licenciosas, insultos, arrogâncias, queixumes e maldições, recebiam agora doces expressões que anunciavam uma consoladora existência superior.

Do pavor, que trouxera aos pés da cruz, passara a uma fortaleza de animo quase invencível.

Antes de se levantar volveu os olhos em torno de si e não viu mais a visão que o amendrontara, havia pouco.

— Oh! Luisinha, como é poderosa a oração ! — disse ele. — Minha mãe, que tantas vezes pôs as suas contas nas minhas mãos, bem sabia que a oração tem mais força do que os homens e vence todas as armas ! É por isso que me ensinava a rezar, a mim que só aprendi a tirar a fazenda e a vida dos meus semelhantes.

Datou desse feliz momento o arrependimento do Cabeleira.

Depois de oferecidas estas orações, lavantaram-se os fugitivos, e foram depor cada um seu beijo aos pés da cruz do ermo.

No bandido já não havia o assassino, havia um espírito contrito, um coração cheio do temor de Deus. Uma mulher fraca, tendo ao seu serviço unicamente a benevolência natural, a perseverança, as lágrimas e um passado quase desvanecido, havia operado uma conversão com a qual poderia legitimamente orgulhar-se um verdadeiro apóstolo do cristianismo.

Com sua luz suave enchia o deserto o astro das recordações e da saudade. O céu estava azul e estrelado. As brisas da noite começavam a mover as folhas do bosque, onde os silvos das cobras, os pios das aves erradias, os uivos dos animais carniceiros formavam lúgubre e medonha orquestra.

Luisinha caiu em uma espécie de sonolência e pouco depois sentiu perturbação mental, e veio-lhe delírio, durante o qual deixou escapar palavras desconexas. A febre que a devorava tinha aumentado com a excessiva fadiga, e com a intensidade das impressões do dia. Cabeleira estendeu por cima dela a sua véstia de couro, e, profundamente comovido, foi sentar-se ao pé da fogueira para não a deixar extinguir-se, e para impedir que se aproximassem as onças que não cessavam de ulular em derredor deles, ameaçando devorá-los. A vida no deserto está exposta a perigos, que mal compreende o que não nasceu no meio deles; só os compensa a liberdade que se depara em qualquer dos gozos que aí se logram.

Pela madrugada adormeceu ao peso da fadiga e ao silêncio que foram fazendo em torno de si as feras. Quando acordou era quase dia. Os passarinhos cantavam com o entusiasmo que desperta em todos os corações o raiar de um dia de verão no seio da natureza.

Seu primeiro cuidado foi saudar aquela a quem devia a ressurreição de sua alma, outrora em trevas aflitivas, agora inundada do suave clarão da piedade cristã.

— Luisinha, acorda — disse ele. — A manhã está fresca. Os passarinhos cantam. A viração tem os cheiros do deserto.

Aproximou-se de Luísa tomou-a nos braços, conchegou-a ao seio, e depôslhe nos lábios um beijo de amor. Os lábios da gentil menina estavam frios, seu corpo gelado. Luísa não pertencia mais a esta vida.

Reconhecendo a cruel realidade, o bandido deu um grito de dor que atroou a imensa solidão como urro de touro selvagem.

— Morta ! Morta ! Luisinha !

O cadáver da moça escapou-lhe dos braços, mas logo o bandido caiu de joelhos aos pés desse corpo inanimado, com o qual tinham falecido todas as suas esperanças de felicidade.

— Luisinha, responde me — disse ele. — De que morreste, meu amor ?

Levantou-se, deu alguns passos a esmo, e tornou ao leito de ramos que tinha servido de leito de morte à virgem dos seus pensamentos.

Pegou-lhe das mãos, que beijou uma, duas, inúmeras vezes, examinou-as, examinou o rosto da infeliz, e só encontrou aí os vestígios do transito final. Tudo estava acabado para ela. Foi esta a verdade cruel que ele viu traspassado de uma pena que se não descreve, e que só ele sentiu nesta vida.

(continua...)

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