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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

É daquele tempo de outrora que principalmente vos ocuparei. Deixemos, pois, as novas e belas ruas abertas ainda ontem e subamos de preferência pelo antigo Caminho do Desterro, que depois se transformou em Ladeira de Santa Teresa, ladeira íngreme, demasiado fatigante e que muito mais penosa seria se, a cada passo que vai subindo, o homem não tivesse ao lado direito um encanto que lhe ocupa o ouvido no murmúrio da corrente da Carioca, que desce pelo encanamento, e ao lado esquerdo mil encantos que lhe disputam os olhos, no quadro formoso e variadíssimo da baía do Rio de Janeiro.

Não temos necessidade de subir muito: o convento de Santa Teresa ali está. Voltai-vos à direita, levantai a cabeça, aí o tendes. Foi um piedoso retiro, e ao mesmo tempo uma prisão tristíssima. É um anacronismo de pedra e cal; mas, também, em todo o caso, foi santa a sua origem, e o mosteiro pode-se dizer a flor mística nascida de uma vocação sublime.

Esperai um pouco: não nos aproximemos ainda do convento. Sentemo-nos em frente dele nestas pedras, e, antes de encetar a sua história, comecemos pela recordação de uma ermida que o precedeu.

Naquele mesmo lugar em que se levantou e ainda hoje se vê o mosteiro das religiosas carmelitas reformadas, existia dantes uma simples e pequena ermida, consagrada a Nossa Senhora do Desterro.

A antiguidade dessa ermida excede a era de 1629. Não se sabe ao certo o ano da sua fundação; ao menos, porém, conservaram as memórias daquela época o nome do bom católico a quem se deveu esse templozinho que se mostrava, no seio do deserto, como um santelmo da fé no meio da solidão tenebrosa. Foi Antônio Gomes do Desterro o fundador da ermida que mais tarde teve de transformar-se em um mosteiro de freiras.

Mas as circunstâncias e motivos que deram lugar à mudança do nome do monte e aos novos destinos da ermida não podem arrancar da história do Rio de Janeiro a sua nobre recordação.

O ano de 1710 gravou naquele sítio pitoresco a lembrança honrosa de um belo feito.

Foi ali, na subida do monte do Desterro, que se postou uma coluna de bravos para disputar o passo aos soldados franceses, comandados por Duclerc, que vinham investindo contra a cidade, e foi ali que esse punhado de valentes fez provar aos audaciosos inimigos invasores uma das primeiras refregas precursoras da sua completa derrota. O sangue dos guerreiros, que então correu, deixou marcado o teatro de uma ação gloriosa e lavrou a carta de nobreza do monte.

Quatro anos depois, em 1714, alguns religiosos de Santa Teresa, mais conhecidos por frades marianos, vieram da cidade da Bahia à do Rio de Janeiro, com a intenção de estabelecer nesta um convento, e foram hospedar-se na ermida de Nossa Senhora do Desterro.

Em semelhante andar a ainda muito limitada Sebastianópolis ficaria bem cedo mais enriquecida de conventos do que certas cidades da Espanha. Já havia realmente riqueza demais nesse gênero dentro dos muros da cidade de Mem de Sá.

Os habitantes de Sebastianópolis poderiam então sentir falta de tudo, menos, porém, de frades, pois que contavam já quatro casas bem povoadas de religiosos, a saber: o Colégio dos Jesuítas e os conventos de S. Bento, do Carmo e de Santo Antônio ou dos franciscanos. Tão satisfeitos estavam com o que tinham, que não desejavam mais. Receberam, portanto, sem entusiasmo, antes, com desanimadora frieza, os padres marianos, que, sem dúvida, ressentidos de tão grande ingratidão, se fizeram de volta para a Bahia no fim de dois anos, deixando outra vez solitária a ermida de Nossa Senhora do Desterro.

Evidentemente, Santa Teresa não se tinha mostrado muito propícia aos religiosos que com o seu nome se honravam, talvez, porém, que assim procedesse por uma justificável parcialidade pelo seu sexo. Porque já a esse tempo a santa reformadora da ordem carmelitana bem podia do alto do céu estar vendo no berço de uma menina de pouco nascida o cálice mimoso da flor mais pura e fragrante dos seus jardins neste mundo, e nessa menina a predestinada para ser a fundadora de um mosteiro que a ele seria consagrado.

Adivinhais que teve enfim a origem do convento que temos diante de nós, e que vou vos fazer ouvir a história da mulher notável que o fez levantar.

Essa história se apresenta com as proporções de uma lenda, e fala, portanto, mais ao coração do que à razão, e mais à fé do que ao raciocínio. Não é uma tradição popular, que se escuta sorrindo e com disposição prévia para descrê-la; é, nada menos, que uma história autêntica com o testemunho do padre José Gonçalves, que a escreveu e que a devia saber perfeitamente, porque era irmão da piedosa senhora de quem vou falar, e ainda com o testemunho jurado de frei Manuel de Jesus, religioso carmelita descalço, que foi o confessor dessa mesma senhora.

Baltasar da Silva Lisboa perpetuou nos seus Anais do Rio de Janeiro a relação minuciosa da vida, sofrimentos e feitos da fundadora do convento de Santa Teresa, e as freiras desse mosteiro conservam ainda por certo e religiosamente um manuscrito em que com muito detalhe tudo isso se refere.

(continua...)

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