Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Ornão-se os espiritos e estragão-se os corações !...
Saltamos de um para outro extremo. Outr'ora preparavão-se os meninos para serem padres ou frades, e quando o menino, tornando-se homem, não conseguia ser nem padre nem frade, ao menos ficava quasi sempre sendo fanatico. Gorrigio-se o erro ; corrigio-se porém de mais : hoje, em vez de fanaticos, estamos fazendo incredulos.
Esta verdade sente-se a cada momento, todos os dias, e no emtanto em lugar de se applicar um remedio capaz de melhorar a situação, nem se attende á educação da mocidade, nem ao menos se trata de fortalecer a religião, regenerando o nosso clero pela intelligencia e pela moralidade. Quem sabe?... talvez se conte muito com o potente auxilio dos frades barbadinhos e de certas corporações que vão lançando raizes no paiz e que não podem senão levar-nos outra vez aos tempos do fanatismo : quem sabe?.,, talvez se esteja sonhando e desejando a volta dos Jesuitass ao Brazil, como se fossem precisas suas roupas negras para que ainda mais negro se nos mostre o horizonte do futuro da patria. Entretanto, é positivo que a falta de educaçãoreligiosa, e religiosa sem fanatismo, deixa submergir-se a juventude nas sombras uma incredulidade fatal.
Essa incredulidade, esse scepticismo apaga a fé, e mata a mais suave e a única infinita das esperanças: a fé e a esperança em Deos.
Sem a luz da fé, sem o conforto da esperança era Deos que tudo póde, como não ha de o homem enfraquecer, desesperar, ou, se quizerem enlouquecer quando esbarra diante de uma desgraça que lhe parece irremediavel e irresistivel?...
Sem a luz da fé, sem o conforto daquella esperança illimitada, infinita, o homem em taes e tão horriveis circumstancias, não se podendo voltar confiadamente para Deos, volta-se para o suicidio ; não acreditando no céo, arranca-se violentamente da terra.
Como então vos sorprenderá, vendo avultar o mappa sinistro dos suicidios?...
Não vos admireis; a arvore está dando os seus fructos ; a desmoralisação e a depravarão dos costumes não podião nem podem produzir outros resultados.
Tende paciencia : a historia de cada suicida é a historia intima dos vicios que corrompem a sociedade.
A recordação e o estudo desses horríiveis casos são tristes e profundamente dolorosos ; podem fazer-vos chorar, eu sei ; mas deverão por isso deixar de ser referidos ?
Chorai, embora : não ha lagrimas estereis senão as da hypocrisia.
Vou contar-vos uma dessas historias.
Tenho-vos feito ler não sei quantos romances alegres e brincões; em compensação, permitti que eu agora vos offereça um outro de um genero absolutamente diverso.
Será um romance triste ; mas tão simples como breve : tolerai-o : e se nem com a tolerancia quizerdes animar-me, não o leais. O titulo deste romane é O Veneno das flores: porque o intitulei assim?... lêde-o, se desejais sabel-o.
O VENENO DAS FLORES.
I.
Cândida festejava o anniversario natalicio de sua querida filha, a bella Juliana.
O brilhantismo das luzes, as ondas de mil perfumes entornados pelas flores, a viva alegria do saráo, a harmonia dos cantos não explicavão a magia indizivel que dava animação e enlevo a essa festa que o amor maternal forjara.
O segredo desse encanto estava na idéa suave de uma aurora que presagiava um formoso dia, na idéa do despontar do décimo setimo anno de uma menina de sorprendente belleza, na admiração da graça arrebatadora que enchia de fulgor e de fascinação os traços angélicos do rosto, e as fôrmas puras e maravilhosas do corpo de Juliana.
Ella brilhava no meio de trinta lindas gentis e faceiras jovens, como Venus no seu esplendor matutino : não tinha rivaes ; era uma princeza formosa cercada de sua corte magnifica.
Seus cabellos erão negros, longos e ondeados, seus olhos da mesma côr de um fixar irresistivel, seu rosto de um perfeito oval e de côr morenoclara finissima; o seu sorrir , era um prodigio de elevadora graça ; seu collo admirava pela magestade; seu peito, como suas espaduas, arrebatava pelas flammas voluptuosas que accendia : a sua voz era cheia de uma celeste harmonia; e emfim toda ella ostentava formosura como a dos anjos, delicadeza como a das flores, frescura como a do orvalho, ligeireza como a dos passarinhos, alegria como a da infancia.
Juliana estava vestida com uma simplicidade magistralmente calculada. Seu vestido de gaze branco, cujo corpinho degollado e liso concedia a vista de encantos que o pejo não veda, e desenhava encantos que elle resguarda, na saia ampla afigurava nuvem fantástica e dava á formosa moça um não sei que de aéreo e vaporoso, que lhe requintava a magia da belleza.
O motivo da festa era um feliz pretexto para
uma preferencia que ninguém se lembrava de dissimular.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.