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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Berta apenas erguera um canto da pálpebra; mas foi o bastante. De relance pulou junto de Miguel, arrebatou-lhe a cotia, e conchegando-a ao seio, começou a alisar-lhe a pelúcia dourada, animando-a com os dengosos requebros e a garrulice carinhosa em que se expande a inexaurível sensibilidade da mulher por tudo que é frágil, mimoso e delicado como ela. 

 Passado o primeiro afago, a travessa repartiu com Miguel as meiguices, não só por gratidão do mimo que lhe dera, como para mostrar que já mão conservava a menor queixa dele. 

- Coitadinha! exclamou ao ver que o animal estava com as patas ligadas por uma fita de crautá. 

- Olhe que foge! disse Miguel impedindo a menina de desdar o laço. 

- Então você há de fazer uma casinha para ela! Tão bonitinha! Que pelo macio; parece um veludo. E os olhos? Tão lindos! Eu conheço uns olhos ternos assim! Não se lembra? 

- Se me lembro! atalhou Miguel com um tremor na voz. Pois não os estou vendo? 

  Com sua volubilidade natural, já estava Berta longe da pergunta que fizera, e, toda embebida de novo com a cotia, sentara-se para agasalhá-la ao colo. 

- Onde apanhou? 

  Teve Miguel de referir então a longa história de como fora o animal apanhando, os incidentes que tinham acompanhado a caçada, e muitas particularidades que Inhá desejava saber; se a linda cotia ainda tinha mãe; se já era casada, e deixara no mato algum filhinho; pois nesse caso queria soltá-la. 

  Tranqüilizou-a Miguel, asseverando que a cotia era solteirinha e vivia só, por terem as raposas acabado toda a família, não tardando que lhe fizessem o mesmo a ela, pelo que era até um benefício retê-la cativa. 

- Ai, coitadinha! exclamou Berta condoída, e conchegando outra vez o animalzinho ao seio. Veja lá, Miguel, você há de fazer a casinha para ela, com porta e janela, e também um coche com seu bebedouro. E depressa que é para eu dar a Linda!...  

Ao mesmo tempo voltava Miguel o rosto para esconder a expressão de pesar que o tinha subitamente invadido, um grito de espanto partia dos lábios de Berta.  

Rápida como uma seta, a cotia fuzilou no ar e sumiu-se pelo mato. O Brás de quem os dois se haviam esquecido, se aproximava rojando pelo chão como um réptil, e sem que o percebessem, acocorado junto à parede, gorgotava um riso sarcástico e manhoso. 

  Precipitou-se Miguel para castigar o idiota, que ele adivinhava ser o autor da pirraça, mas Berta, que lhe viu o ímpeto, se interpôs a tempo. 

- Deixe, Miguel! exclamou ela; e voltando-se para o alarve, atirou-lhe apenas esta palavra: 

- Lesma! 

Como um novilho ferido pelo aguilhão, o idiota arremeteu pelo campo e desapareceu. 

- Se você não fizesse tão pouco caso do que eu lhe dei, aquele brutinho não se havia de atrever. 

- Oh! Miguel, pois queria mais? 

- Dando aos outros em vez de guardar para si? 

- Mas era para Linda! atalhou Berta com ingenuidade. Ela havia de ficar tão contente, sabendo que vinha de você! 

  Concentrou-se Miguel em um violento esforço, que lhe desmaiou o brilho dos grandes olhos e a cor das faces. 

  É tempo de acabar com este gracejo, Inhá. Além de minha mãe, eu lhe juro, que só a você quero bem; mas você não se importa comigo; portanto já sei o que devo fazer. Não hei de aborrecê-la mais. 

 

 

XXVIII 

A bolsa 

 

  Naquela manhã Jão Fera saíra das brenhas, onde se acoitava, à mesma hora em que Berta chegava à tapera para ver Zana. 

  Vinha o capanga sombrio e torvo mais que de ordinário, porém sobretudo absorto em funda cogitação, e tão alheio de si, que não se apercebia do lugar por onde passava, nem dos objetos que o cercavam. 

  Devia ser poderosa a preocupação que assim o demovia da habitual desconfiança, bem como das precauções, indispensáveis na sua condição de foragido e reclamadas pela perseguição de que era alvo. 

(continua...)

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