Por José de Alencar (1872)
Passeando de um para outro lado, Guida falava, abatendo com a chibata os largos rofos da saia de montar; na ida e vinda lançava a Ricardo um olhar impaciente por causa do silêncio com que ele a escutava.
- Não sabe o conceito que havíamos de fazer um do outro?
- Não, senhora.
- Eu lhe digo; mas permita que nos substitua por outros quaisquer para haver mais franqueza. O herói do romance teria e heroína na conta de uma criatura sem alma, nem coração; espécie de mulher de ouro, para quem o sentimento é cálculo, e que só conhece uma linguagem, a moeda. A heroína consideraria o salvador como um presunçoso, que aproveitara-se de um mero acaso para se guindar ao pedestal de herói, e humilhar os outros com o seu desdém. Pensa que exagero?
- Ao contrário, acudiu Ricardo firme no seu propósito de não chocar o melindre da moça.
- Já se vê que fez uma idéia muito errada a meu respeito. Não tenho queda para romântica, nem jeito para representar de musa suplementar, e como Safo atirar-me do rochedo abaixo, a pé ou a cavalo. Sou filha de banqueiro, e deram-me educação inglesa. Devo ter pois o espírito positivo, e saber o valor do tempo, o que quer dizer, da vida. Para mim não há homem neste mundo que valha um suspiro, quanto mais um suicídio!
Nesse momento chegava o rancho dos cavaleiros, cujo primeiro susto se desvanecera com esta observação, que, se tivesse acontecido alguma desgraça, Ricardo houvera gritado por socorro.
O Benício correu direito ao paulista, ocupado em mudar os arreios, e atirou-se ao chão como uma bala:
- Sucedeu alguma coisa?... Tenho aqui meu estojo! Se precisa furar... Olhe, aqui está! Quem sabe se a excelentíssima não se machucou. Eu tenho aqui arnica! É uma coisa que trago sempre comigo! Então!...
Vendo aproximarem-se os companheiros de passeio, Guida afastou-se deixando Ricardo às voltas com o Benício, e foi contemplar o esplêndido cenário que se desdobrava em face dela.
Além, na extrema, campindo os horizontes do soberbo painel, o oceano calmo e sereno que se vinha desdobrar até babujar com branca orla de espuma as praias de Copacabana e de Marambaia. Era a tela onde se estampava com vivo colorido, sobre o campo azul, a magnífica paisagem.
Um jardim encantado, como se desenha à imaginação, quando lemos aos vinte anos os contos das Mil e uma noites; um sonho oriental debuxado em porcelana ou madrepérola; tal era o quadro deslumbrante que debuxavam aquelas encostas.
Lá, no mar, as ilhas que fingem ninhos de gaivotas, a se balouçarem ao reflexo das ondas. Na praia junto à Lagoa, as alamedas do Jardim Botânico, recortando em losangos os maciços da folhagem; e as palmeiras imperiais meneando às brisas da manhã os seus verdes cocares.
Não vês junto ao sítio aprazível um enorme caramelo, servido sobre uma taça da mais pura safira, como a promessa dos regalos que a natureza americana oferece aos que visitam suas plagas?
É o Pão de Açúcar, no esforço a que o reduzem a distância e a eminência, donde o avistamos.
A nossos pés, o gigante da pedra, o prócero Corcovado, que o nauta em demanda da barra antolha-se como o guarda desse Jardim das Hespérides e daqui parece agachado, como um anão, à base da grande montanha que nos serve de pedestal.
O que porém dava a essa perspectiva um aspecto fascinador, era sobretudo a diáfana limpidez do ar e uma plenitude de luz que estofava os objetos, cobrindo-os com uma espécie de áurea expansão. Não se podia chamar resplendor, porque não reverberava nem deslumbrava os olhos; era antes uma pubescência, doce e aveludada, onde se engolfavam os olhos com delícia.
Derramaram-se os passeantes pela borda da esplanada para melhor apreciar os vários pontos de perspectiva, e cruzaram-se as observações de toda a casta, e as réplicas ou risos que elas provocavam.
- É o reino das fadas, disse Fábio a D. Guilhermina, mostrando-lhe o admirável panorama. Está a senhora nos seus domínios.
- Se assim fosse, eu encantava-o já, respondeu a moça a sorrir.
- Em quê?
- Nesta flor! tornou mostrando-lhe uma violeta que prendeu ao seio. A esse tempo dizia o Guimarães:
- Não sei o que acham demais neste lugar! Abalar-se a gente para ver morros trepados por cima doutros!
- Pretexto para o almoço, homem, disse o Bastos, a quem o passeio afiara o apetite; contando que não se demore o farnel.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.