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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

No meio, porém, dêsse concêrto e do borborinho que ainda levantava a labutação diária, atravessava o espaço uma nota dorida, plangente, ressumbro de saudade infinda. Se a alma da solidão se fizesse mulher, ela não tiraria de seu mavioso seio um suspiro tão melancólico e tocante como o arrulho da jurití ao cair da noite. 

Nessa hora a lida jornaleira das fazendas torna-se mais pressurosa, como para aproveitar os últimos instantes do dia. 

Os lenhadores voltavam do mato carregados  de feixes, enquanto os companheiros conduziam à bolandeira cêstos de mandioca, aind ada plantação do ano anterior, para a desmancharem em farinha durante o serão. 

As mulheres livres ou escravas, umas pilavam milho para fazer o xerém; outras andavam nos poleiros guardando a criação para livrá-la das raposas; e os moleques as ajudavam na tarefa, batendo o matapasto, ou dando cêrco às frangas desgarradas. 

As cozinheiras, encaminhando-se para a fronte a fim de lavar alí na água corrente a louça de mesa e fogão, assim como as caçarolas, cruzavam-se em caminho com as lavadeiras que já se recolhiam com as trouxas de roupa na cabeça. 

Nos currais tirava-se o leite, acomodavam-se os bezerros, e cuidava-se de outros serviços próprios das vaquejadas, que já tinham começado com a entrada do inverno, porém só mais tarde deviam fazer-se com a costumada atividade. 

Era a êste, de todos o mais nobre dos labores rurais, que o capitão-mór costumava assistir regularmente, para o que todas as tardes à hora da sombra transportava-se êle do seu pôsto no patamar da casa, e vinha com a família sentar-se defronte do curral na mesma poltrona, que o pagem levara após si. 

D. Genoveva entendia mais particularmente com o leite, o qual alí mesmo distribuia; uma parte entregava-se às doceiras incimbidas dos bolos e massas; outra repartia pelas crias, e o resto era levado à queijaria. Isto quando não tinha chegado ainda a fôrça do inverno, porque nesse tempo havia tal abundância, que enchiam-se todas as vasilhas e até os coches onde os cães do vaqueiro iam beber. 

O narrador desta singela história teve em sua infância ocasião de ver na fazenda da Quixaba, próxima à serra do Araripe, êsse aluvião de leite, na máxima parte desaproveitado pelo atraso da indústria, e que podia constituir um importante comércio para a província. 

Enquanto a mulher ocupava-se com êsses misteres caseiros, o capitão-mór percorria os currais, tomando contas aos vaqueiros, mandando apartar os novilhos que era costume reservar para bois de serviço; indicando a rês que se devia matar para o gasto da casa; e assistindo a esfolar e esquartejar, no que se comprazia com a perícia dos carniceiros. 

No tempo da ferra, tratava de apurar os garrotes apanhados na safra do ano anterior, escolhendo os da propriedade para deixar o dízimo do vaqueiro, segundo as condições do trato, que ainda são atualmente as mesmas em voga no sertão da província. 

Com êstes e outros serviços das vaquejadas deleitava-se o capitão-mór, que achava nessa vida ativa e agitada as emoções das lides e façanhas guerreiras, para que o atría sua índole. 

Mais de uma vez, quando algum touro bravo resistia aos moços do vaqueiro e acuado pelos cães no meio da várzea, bramia escarvando o chão, aceso em fúria, com os olhos em sangue, o velho capitão-mór sentindo repontarem-lhe uns ímpetos de juventude, vestia o gibão de couro e as perneiras, montava no seu ruço, e empunhando a vara de ferrão na esquerda, arremetia contra o animal, topava-o no meio da carreira, e o trazia ao curral pela ponta do laço. 

Naquela tarde, não se entreteve o fazendeiro, como em outras, com a inspeção do gado; pois recolheu-se mais cedo que de costume; e sua fisionomia que só nos raros, mas terríveis, transportes de ira, perdia a calma e apática serenidade, mostrava nessa ocasião sintomas visíveis de descontentamento. 

Caminhava o capitão-mór com o passo grave e pausado, medido pela cadência de sua alta bengala de carnaúba, rematada em um castão de ouro lavrado, o qual tocava-lhe pelos ombros. Sua contrariedade denunciava-se, para quem lhe conhecia a solenidade do gesto, na frequência com que êle consertava o chapéu armado, como se lho incomodasse. 

D. Genoveva ia ao lado do fazendeiro e embora não escapassem à sua solicitude êstes sinais de impaciência, todavia não pensava em interrogá-lo diretamente e esperava que êle se decidisse a comunicar-lhe seu pensamento. O extremoso amor da boa senhora não se animava a infringir o respeito e submissão que tinha pelo marido. 

(continua...)

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