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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– A senhora não tinha tido tempo de estudar a sua posição, e ainda que a houvesse estudado, o mesmo sucederia. A perturbação, o enleio, o pejo a acompanhou em todo o passeio. Avaliando já seus sentimentos, e levada pelo braço de um homem a quem amava, e por quem era amada, temia que uma simples palavra a pudesse trair, que os olhos dos observadores arrasassem o segredo de si própria... e corava... e meditava; e portanto a senhora meditava e medita ainda; porque ama.

– Ah! senhora!... exclamou a moça, escondendo o rosto com as mãos.

– Minha mãe! basta!... disse o mancebo fora de si: basta, ou eu me retiro.

– Não! fica! e se vale alguma coisa para ti a autoridade de mãe adotiva que em mim respeitas, fica! eu te ordeno que fiques!...

O mancebo ficou imóvel à voz da velha.

– E este mancebo, disse ela a Celina, apontando Cândido com seu trêmulo dedo, concebe a senhora como é que este mancebo lhe ama?... oh!... ele dirá que não, ele há de jurar que eu minto. E sabe por quê?... porque, escravo do mais nobre orgulho, ele não quer ser amado por uma mulher que possui mais do que ele. Quereria, senhora, vê-la pobre e desgraçada, para lançar a alma a seus pés, e no entanto...

– Basta, minha mãe!

– No entanto é a senhora o objeto de seus mais belos e caros pensamentos. Ao romper da aurora ele, da fresta da janela do sótão que habita, acompanha com os olhos todos os seus passos, quando a senhora vai passear por entre suas flores...

– Minha mãe!... silêncio!... exclamou o mancebo, caindo de joelhos aos pés da velha.

Celina respirava apenas.

– Durante o dia, continuou Irias, ele não pensa, ele não suspira, ele não vive senão pela senhora.

– Minha mãe!...

– De noite, se dorme, são seus os sonhos dele; se vela, ele vive ainda só pela “Bela Órfã”, e escreve hinos ao objeto de seus cultos...

– Minha mãe!...

– Negas isto?... perguntou a velha com tom grave.

– Nego! disse Cândido.

As três personagens no fervor dessa prática se haviam insensivelmente erguido, e se tinham chegado até junto do piano.

– Negas isto? repetiu Irias.

– Nego, respondeu outra vez o moço.

Então a velha, lançando a mão no bolso de seu vestido, tirou dele um papel, e o ia entregar a Celina; mas vendo que esta não o recebia, lançou-o sobre o piano, e disse:

– Eis aí, senhora, a declaração de amor deste mancebo.

– Que é isto? perguntou Cândido.

– Os versos que escreveste em uma das noites passadas.

Ouviu-se nesse momento o tropel que faziam Anacleto e Mariana descendo a escada do sótão. Cândido lançava-se sobre o papel, quando Irias o susteve com sua mão musculosa e forte, dizendo:

– Aquilo não te pertence mais.

Quando Anacleto e Mariana entraram na sala, Celina, trêmula e cheia de pejo, lançou seu lenço branco sobre o papel.

Depois, aproveitando um instante em que todos pareciam estar entretidos, ela, não tendo bolsos no vestido, escondeu o papel no seio.

Cândido viu isso.

Na hora de recolher-se, a “Bela Órfã” abriu esse papel e viu algumas folhas escritas: eram versos, e constavam de trinta e duas estrofes, tendo por título o seguinte: “O Sonho da Virgem”.

CAPÍTULO XVII

JOÃO E RODRIGUES

CONTRA todos os seus hábitos, o velho Rodrigues, guarda-portão do “Céu cor-de-rosa”, deixou às oito horas da noite o seu eterno posto do alpendre e desceu por um beco que vai abrir-se no largo da Lapa.

José e Helena, que estavam como sempre de espreita à janela, disseram um para o outro ao mesmo tempo:

– Temos novidade.

O ex-escrivão, tomou imediatamente o chapéu, e saindo, apressou os passos até descobrir o velho Rodrigues, e o foi acompanhando de longe, e com todo cuidado para não ser por ele descoberto.

Helena ficou só, mas sempre vigilante à janela, observando o que pela vizinhança ocorria.

O velho guarda-portão, sem nunca olhar para trás, atravessou o largo da Lapa, e tomou pela rua do Passeio Público, deixou ao lado esquerdo a rua das Marrecas, venceu todo largo da Ajuda, e como quem se dirigia para a de S. José, foi indo sempre no mesmo passo, até que endireitou para a portaria do convento da Ajuda, e foi sentar-se nos degraus superiores.

Jacó coseu-se com a parede do convento, aproximou-se quanto pôde do velho, e finalmente, atirou-se ao chão, procurando ser tomado por algum mendigo.

O guarda-portão descobriu-o a tempo, e reconheceu o ex-escrivão; mas não deu sinal algum de o ter feito, e ficou quieto no mesmo lugar, cantarolando por entre os dentes uma de suas prediletas baladas.

Um quarto de hora depois o vulto de um homem alto veio-se aproximando do posto que Rodrigues tomara.

O velho chegou-se mais, enfim subiu também os degraus da portaria: era um velho pouco mais ou menos da mesma idade de Rodrigues.

– Adeus, João, disse Rodrigues.

– Boa-noite, Rodrigues! disse o recém-chegado tomando lugar e sentando-se junto do guarda-portão.

– Esperaste muito?

– Não, há um quarto de hora, apenas.

(continua...)

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