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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Os quadros que ele traz, talvez, não sejam dele; são de uma banalidade de concepção e de uma infantilidade de execução lamentáveis; mas os tais homens lidos, viajados, que desprezam os javaneses (os mulatos de lá), afirmam que o homem é extraordinário.

Dito isto, logo todos os bobos ricos, enriquecidos com o tráfico do ópio e outras maléficas, a fim de imitarem os príncipes da Renascença — já se viu! — correm à exposição e compram os quadros a preço de ouro, enquanto os pobres diabos naturais ou vivendo na Bruzundanga, que são conscienciosos do seu mister, morrem em ofícios humildes ou de sodka.

E assim o gosto da gente superior da Bruzundanga, gente feita de doutores e aventureiros, ambas dadas à chatinagem e à veniaga, desde os primeiros caçando casamentos ricos e os segundos na cavação comercial e industrial, sem ter tido tempo para se deter nessas coisas de pensamento e arte.

Quando ficam ricos, estão completamente embotados, para não dizer mais...

Houve um pintor viriático que veio com uns quadros dramáticos. cenográficos para a Bruzundanga, precedido de uma fama de todos os diabos, a ponto de um guarda-livros, Filinto não hesitar em dizer que era Leonardo Da Vinco.

Quando publicar estas notas em volume, que está a aparecer em edição de Jacinto Ribeiro dos Santos, meu bom amigo e camarada, hei de juntar uma reprodução do retrato eqüestre de um rei dele, o pintor, que é o modelo mais perfeito do maneirismo, do apelo aos uniformes, aos chamalotes, às plumas que conheço, em pintura.

Estas notas foram escritas ao correr da pena; mas, entretanto, poderei desenvolvê-las se os interessados me provocarem. Escrevo em dia oportuno. ABC, Rio, 7-9-1919.

Lei de promoções

(Crônica Militar)

O que tem até agora regulado as promoções, quer no exército e armada, quer na polícia e guarda nacional, é o arbítrio, o capricho e a ignorância cega dos elementos da genesíaca cartesiana, que os metafísicos definem erroneamente como aplicação da álgebra à geometria.

No semi-século genial e fecundo que medeou entre Descartes e Leibnitz, muita conquista útil foi obtida, no terrena da análise transcendente, mesmo antes da sua completa sistematização pelo gênio do último daqueles filósofos.

Fermat, Cavallieri, Roberval e outros muitos concorreram para o estabelecimento definitivo do instrumento leibnitziano — uma imortal conquista científica, para obtenção da qual o espírito humano estava assaz maduro, tanto assim que Newton, pela mesma época, apresentou o seu cálculo das fluxões.

Todo esse lento e paciente trabalho que absorveu o espírito de tantos grandes homens da Humanidade, obriga-nos a dispensar um culto acendrado à memória deles, por isso lhes cito aqui os nomes, ao lembrar as suas descobertas que muito lucraram com o rigor e a justiça das promoções nos batalhões dos colégios equiparados e linhas de tiro.

Nestas unidades, o acesso ao posto imediato é determinado por um processo rigorosamente científico, de um rigor verdadeiramente astronômico.

É preciso estendê-lo ao resto das forças armadas.

Suponhamos um sargento que quer ser alferes. Pega-se o candidato e faz-se engolir a seguinte beberagem:

Ácido azótico .......................................... 5 g.

Oxalato de potássio .............................. 7 g.

Magnésia calcinada ............................... 3 g.

Bicloreto de mercúrio ............................. 2 g.

Água destilada ......................................... 100 g.

Deve-se dar ao paciente tudo isto de uma só vez. Se o sujeito não bater a bota, examinam-se as fezes com o papel tournesol, que, no caso de avermelhar-se, indica que o tipo pode ser alferes. No contrário, não.

Isto não tem nada que ver com Leibnitz, nem com o seu cálculo infinitesimal; mas não me ficava bem deixar de citar o imortal filósofo e a sua magna obra, podendo, se assim não procedesse, ser confundido com um qualquer legislador metafísico e anarquizado, por aí, que não é senhor do saber integral da humanidade.

A dosagem que indiquei, deve variar quando se tratar de polícias, guardas nacionais e oficiais de fazenda. Para os primeiros carregar no ácido azótico, para os segundos e terceiros, dobrar a dose de bicloreto de mercúrio.

Com o emprego deste método que é rigorosamente científico, o governo pode ter, em breve, um corpo de oficiais perfeitamente selecionados pela Morte e um povoamento rápido e instantâneo dos cemitérios — o que, afinal, é o fim natural de todas as guerras a que os oficiais, sejam desta ou daquela corporação, são obrigados a servir com todos os riscos e vantagens.

Há, porém, o método empírico que é mais humano e compatível com o grau de adiantamento a que chegou a nossa humanidade atualmente. Não há morte, nem sangue, nem bravura, nem salvas.

(continua...)

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