Por Aluísio Azevedo (1897)
— Em ti, leal companheiro dos meus antepassados, beijo o sangue generoso de minha mãe, que a mim te transmitiu, sem contigo me transmitir o seu valor. E ela que me envie, lá da sua etérea morada, perdão para esta minha morte tão mesquinha, tão covarde e tão indigna da sua raça!
Mas, antes de alçar a arma, um forte rugido de fera, um rouco surdo e cavernoso, que parecia sair dos aposentos dos noivos, empolgoulhe a atenção.
Prestou ouvidos. Um novo ronco sucedeu ao primeiro.
Dirseia um tigre a roncar amordaçado.
E pouco depois os rugidos começaram a repetirse quase sem intermitência. — Socorro! gritou daquele mesmo ponto uma voz de mulher.
Gabriel não esperou por mais para meter ombros à frágil porta do pavilhão, arrombandoa com estrondo e precipitandose lá para dentro como um raio.
— Socorro! Socorro!
Atravessou de carreira um corredor, ao fundo do qual havia uma cancela com vidros de cor, iluminados; despedaçou um dos vidros, e enfiou a cabeça pelo esvazamento aberto. Era aí o quarto dos noivos. Gabriel sentiu ouriçarlhe o cabelo à vista da terrível cena que se patenteava a seus olhos.
O noivo de Ambrosina estava em posse de um ataque de loucura furiosa.
Leonardo, assim se chamava ele, já desde antes do banquete nupcial havia sentido um princípio de vertigem e um estranho sobressalto de nervos, que lhe alteravam a respiração e lhe punham o sangue desassossegado.
Não ligou a isso grande importância, tratando, porém, ao sair da mesa, de apressar o momento feliz de fugir com a desposada, para a grata independência do ninho que os esperava.
Mas, nem aí conseguiu tranqüilizarse; continuava sobressaltado, quase ofegante. E, mal havia trocado com a esposa as primeiras e ainda formais expressões da íntima ternura, um novo e mais forte rebate dos nervos lhe agitou todos os membros a um só tempo, como por efeito de uma formidável descarga elétrica.
Leonardo estremeceu da cabeça aos pés, contraindo os lábios, abrolhando os olhos e rilhando os dentes. E começou a tartamudear inarticulados sons e a extorcerse no luxuoso divã em que havia resvalado.
Ambrosina, já recolhida ao leito, afogada de finos lençóis até à garganta, acompanhavalhe os menores gestos, tiritando de susto e pronta a pedir socorro.
O infeliz ergueuse por fim, e pôsse a andar ao comprido da alcova, muito alvoroçado, sem largar de fazer com a boca e com os olhos contorsões epilépticas. E, ao passar defronte do vasto espelho de uma linda psichê de moldura dourada, encarouse, soltou um tremendo berro e despedaçou a lâmina de cristal com um murro.
A noiva, de um salto da cama, procurou fugir da alcova, clamando socorro. Ele, porém, a apanhou nos braços, antes que ela conseguisse abrir a porta.
Ambrosina, retorcendo o corpo com uma agilidade de serpe, logrou, aos gritos, escaparlhe das mãos; mas Leonardo cortoulhe a saída, rojandose diante da porta, na destra posição de um tigre que arma o pulo sobre a presa. Faiscavamlhe os olhos, espumavalhe a boca e fungavamlhe as ventas, como de faminta fera fariscando sangue. A punhada no espelho cortaralhe o pulso, e dos golpes todo ele se tingia de rubras manchas.
Ambrosina estonteada de pavor e já sem voz para gritar, corria, seminua, de um canto a outro da atravancada câmara, ora a esconderse no cortinado do leito, ora a agacharse por detrás dos mimosos biombos de seda e dos elegantes moveizinhos de laca japonesa.
Ele afinal, grunindo, pinchouse sobre ela, e apresoulhe com os dentes a sutil camisa de claras rendas e laços corderosa. A bela rapariga soltou um grito mais forte, e caiu por terra sem sentidos, rachando o crânio contra as patas de bronze de um jarrão de porcelana oriental.
Leonardo apoderouse da desgraçada com uma alegria feroz.
Foi nessa ocasião que Gabriel rompeu o vidro da porta. A fera, ao dar com ele, abandonou a presa e, entre medonhos uivos, engatinhouse para o intruso.
Gabriel viua aproximarse, e sentiu o coração saltarlhe por dentro como outra fera também furiosa. Em um abrir e fechar de olhos, levou de arranco a ogival cancela que os separava, e achouse em frente do louco.
Leonardo, já de pé, recuou dois saltos, e de um bote se arrojou sobre o adversário, fazendo voarlhe do punho a arma estremecida.
Engalfinharamse, lutando peito a peito, cara a cara, como dois demônios possessos da mesma raiva; e afinal rolaram no chão, feitos num só, numa só massa iracunda e ofegante, que rodava na estreiteza da alcova, levando de roldão o que topava, despedaçando móveis, faianças e cristais, fundidos num infernal abraço de extermínio. Gabriel sentia as garras e os dentes do louco rasgaremlhe as carnes, mas insistia em estrangulálo, tentando empolgarlhe o pescoço.
Felizmente, Gaspar, que havia apanhado no ar a situação e correra a chamar pelos de casa, invadia agora, acompanhado por outros, o revolto aposento dos noivos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.