Por Machado de Assis (1886)
— Oh! sempre! disse Valentim.
— Não sei por quê, diz-me o coração que, uma vez passado o mar, hás de esquecer-me.
— Não digas isso, Emília, Emília, nunca te esquecerei, nem fora possível depois que jurei entre mim aceitar-te por mulher diante de Deus e dos homens. Mas se ainda uma vez queres que to jure...
— Por esta noite, por Deus que nos ouve?
— Sim.
Os dois olharam-se de novo com aquele olhar supremo em que os corações apaixonados sabem traduzir os seus sentimentos nas horas de maior exaltação.
Encostados à janela os dois amantes viram correr os meteoros do alto do céu até o horizonte, deixando após si um sulco luminoso que se apagava logo. A noite era das mais belas noites de verão.
O espírito suspeitoso de Emília achava, apesar dos juramentos reiterados de Valentim, ocasião para revelar as suas dúvidas.
Olhando tristemente a estrela que corria.
...Cette étoile qui file, Qui file, file et disparait,
A moça dizia baixinho:
— Quem sabe se, como esta estrela que desapareceu, não há de ser o amor dele, que nem ao menos lhe deixará no coração uma lembrança sequer, como esta estrela não deixa vestígios no céu?
— Sempre desconfiada, Emília.
— Ah! dizia ela como que acordando.
— Não te jurei já?
— Juraste... mas os pressentimentos...
— Criancice!
— Às vezes são avisos do céu.
— Contos da carochinha! Não te disse já que te amava?...
E um beijo longo, mais longo que o primeiro, uniu os lábios de Valentim aos de Emília. A manhã veio surpreender Emília à janela. Estava só. Nem Valentim, nem a escada estavam ali.
Emília tinha as feições alteradas e os olhos vermelhos de chorar. Dissera-se a deusa da vigília vendo morrer no céu as últimas estrelas.
Quando ela reparou que era dita, já de há muito tinham as sombras da noite sido expelidas, e do oriente começavam a surgir os primeiros raios vivificantes do sol. Emília retirou-se para dentro.
Estava cansada. Mal pôde ir até o sofá. Ali lançou os olhos para um espelho que havia em frente e pôde ver a mudança do rosto e a desordem dos cabelos. Então duas lágrimas correram-lhe pelas faces, e ela olhou para a janela como se ainda pudesse ver a imagem do amante.
Mas o cansaço e o sono venciam aquela fraca natureza. Quis resistir, não pôde. O espírito não podia mais sustentar aquela luta desigual.
Emília dirigiu-se para a cama e atirou-se a ela vestida como estava.
E adormeceu.
Quanto a Vicente, que dormira a noite inteira sem interrupção alguma, levantou-se às sete horas, tomou uma xícara de café, vestiu-se e saiu.
Antes de sair perguntou à mucama de Emília se estava acordada. Disse-lhe ela que não. Vicente deixou dito que ia ao bota-fora de Valentim.
E saiu, com efeito, com direção ao cais próximo para tomar um escaler e dai seguir para o vapor que devia partir às oito horas.
Valentim já lá estava.
Quando Vicente subiu à tolda, Valentim foi direito a ele para abraçá-lo. O vapor estava prestes a largar.
O pouco tempo que havia foi empregado nas últimas despedidas e nos últimos protestos de amizade.
— Adeus, meu pai! disse Valentim. Até breve.
— Breve, deveras?
— Deveras.
— Adeus, meu filho!
Tal foi a despedida cordial, franca, sentimental. Vejamos agora o anverso da medalha. Quando Vicente voltou para casa encontrou Emília de pé. Estava pálida e desfeita. Vicente foi a ela sorrindo.
— Não te entristeças tanto, disse-lhe, ele volta.
— Partiu, não?
— Agora mesmo.
Emília suspirou.
Vicente fê-la sentar ao pé de si.
Ora, vem cá, disse-lhe, se te entregas a essa dor, ficas magra, feia, e quando ele vier, em vez de eu lhe dar uma mulher refeita e bonita, dou-lhe uma que ele não deixou e que não era assim. Um mês depressa se passa e as lágrimas não fazem correr os dias mais depressa. Pelo contrário...
— Mas eu não choro, meu pai.
Choraste esta noite. Era natural. Agora consola-te e espera. Sim?
— Sim. Ele foi triste?
— Como tu. É outra criança. Nada de choros. Esperança e confiança. Ora bem... Emília procurou rir, como podia, para consolar o pai; e durante os dias que se seguiram não foi encontrada a chorar uma só vez que fosse, nem os seus olhos apareciam vermelhos de chorar.
É certo que se alguém enfiasse um olhar pela fechadura da porta do quarto de Emília vê la-ia todas as noites antes de deitar-se rezar diante do pequeno oratório e derramar lágrimas silenciosas.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.