Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Estou na mesma : e a senhora onde mora?...
A velha disse-me o nome da rua e o numero da casa em que morava, e sumio-se ligeira como um coelho
Eu estava enthusiasmado : não conhecia ainda a bella mysteriosa ; mas pelo menos já possuía a bolsa de seda.
Corri para casa, e cheio de ardor, tendo nos olhos o fogo da felicidade, e no coração o anhelo da mais terna esperança, apresentei a bolsa de seda a minha mãe e a minha irmã.
— Então, que lhes dizia eu ? .. exclamei : tenho a bolsa ou não ?..,
— Mas... que vale uma bolsa ?... perguntoume minha mãe.
— Essa agora é boa !... que vale uma bolsa ?... pergunte ao mundo, minha mãe ! um homem que tem uma bolsa, tem o segredo da felicidade no amor.
— Vazia assim ?.. disse-me rindo e sacudindo com a bolsa minha irmã.
— Sacrilega ! exclamei.
— Entretanto, deve-se confessar que está bemfeitinha! continuou ella examinando ; eis aqui uma mancha...
— Foi dos meus beijos, acudi eu.
— Vejamos por dentro, proseguio minha irmã que é das Arábias, voltando a bolsa de dentro para fora.
Eu estava em êxtase.
— Oh !... exclamou ella soltando uma risada.
— Então que é isso ?...
— Constancio, perguntou-me a cruel moça ; a tua desconhecida é costureira de alguma casa de modas da rua do Ouvidor ?
— Invejosa !
— Esta bolsa veio de Pariz : olha aqui no fundo a marca da casa da rua do Ouvidor.
Vi .. vi, e, cousa extraordinaria, não desmaiei ! tive n'aquelle momento pena de não ser mulher; se eu o fosse, teria arranjado um faniquito á proposito.
Emquanto minha mãe e minha irmã desfaziãose em risadas, sahi e corri desesperado á casa da velha de mantilha. Lembrava-me perfeitamente a rua e o numero ; cheguei deitando a alma pela boca fora, e... tenho vergonha de o o dizer...
— Então que foi !...
— O numero que a velha me tinha dado era de uma casa de vigesimos.
— Bravo ! logrado pela moça e pela velha... E depois?...
— Ah ! depois ? depois ! é que cinco dias inteiros fui victima das zombarias de minha terrivel irmã, que não cessa de ridiculisar a minha paixão e ainda mais a minha apaixonada !
— Pois tu ainda estás apaixonado ?...
— Sabbado passado estava até os olhos ; agora estou até os cabellos ! que queres ?... o homem é escravo da mulher que mais martyrios o faz soffrer.
— E ficou n'isso a historia?...
— Não : até aqui o ridiculo, até aqui o desespero, a raiva, e não sei que mais ; daqui por diante uma luzsinha de esperança.
— Accende-a depressa aos olhos dos meus leitores, Constancio.
— Fui durante a semana todas as noites á casa da familia pobre onde pela primeira vez encontrara a desconhecida : uma noite fui ás dez horas, outra ás nove, outra ás oito e outra ás sete, desde domingo até quinta-feira.
— E a bella mysteriosa?...
Foi todas essas noites também ; mas sempre sahia dez minutos antes da minha chegada, como se alguém a prevenisse d'ella ! além de formosa, porque o ha de ser por força, é ainda mais feiticeira !...
— Enganão-te n'essa casa também, Constancio: a desconhecida lá não tornou mais.
— Oh se tornou ! deixa sempre signaes da sua visita, disse Constancio, tirando um embrulho do bolso, disse: olha !
Olhei: Constancio desatou o embrulho que estava amarrado com uma fita verde ; vi cinco embrulhos mais pequenos : no primeiro estava escripto — Domingo.
— Eis aqui as petalas de uma rosa que na noite de domingo ella desfolhou ao pé da cama da velha. Aqui está no embrulho da segunda-feira uma luvasinha de mão de creança que ella esqueceu sobre a cadeira ; no embrulho da terçafeira uma fita de sapato que se lhe rebentou no embrulho da quarta-feira tres alfinetes e uma agulha com que estivera tecendo ; e no da quinta-feira, emfim, um lencinho bordado, mas sem trazer marcadas as iniciaes do nome de sua dona, que é o que sinto.
— Ah Constancio ! d'esta vez embrulhaste-me a semana toda !
— E o mais é que a bella mysteriosa me conhece; fallou a meu respeito, disse o meu nome, o de minha mãe e de minha irmã, sabe onde moramos, e asseverou que me ama extremosamente desde muito tempo.
— Bravo ! e a bolsa de seda ?...
— Foi um mono que me pregou a velha de mantilha ; a bolsa de seda. ella apenas poude acabar na quinta-feira á noite, e confessou que a destina para a exposição de amanhã.
— Oh ! então, parabéns !
— Mas o peior é que ella teima em não dar-se a conhecer, e jura que eu nunca lhe verei o rosto: hontem logrou-me como se logra a um tolo ; ao mesmo tempo porém inflam-mou ainda mais as minhas esperanças.
— Conta-me isso.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.