Por Martins Pena (1846)
PEDESTRE – Matar-te! Isso fica para quando o mereceres... Por ora, basta que eu seja mais cauteloso. Todas as portas, todas as janelas desta casa vão ser pregadas a prego... Um pequeno postigo naquela porta – quanto caiba meu corpo – será bastante para eu sair... E o postigo fechará como uma tampa de caxeta e aldraba – nada de fechaduras com buraco! A luz virá pelo telhado... Não, não, os telhados andam também muito perigosos... Uma candeia de dia e de noite estará acesa aqui. Quero ver se assim me logram.
ANACLETA, com muita tranqüilidade – Agora que te ouvi, ouve-me também. Fecha todas estas portas, prega-as, calafeta-as, rodeia-me de vigias e cautelas, que eu hei de achar uma ocasião para fugir!
PEDESTRE – Tu? Oh!
ANACLETA – Eu, sim! E irei direitinha daqui para o Recolhimento, donde saí, depois de queixar-me às autoridades.
PEDESTRE – Tu és capaz de fugir daqui?
ANACLETA – Sou sim!
PEDESTRE – Meu Deus, como hei de eu fechar estes demônios, estas endiabradas?
ANACLETA – Minha mãe – Deus a perdoe! – lançou-me na roda dos enjeitados. Na Santa Casa fui criada e educada...
PEDESTRE – Boa educação!...
ANACLETA – Privada dos carinhos maternais, pobre e abandonada como eu era, encontrei nessa casa de misericórdia cristã amparo e proteção; nela cresci e nela aprendi a orar a Deus pelos meus benfeitores e por minha mãe, que me havia abandonado, minha mãe, de quem só possuo no mundo esta cruz que desde o berço me acompanha... (Assim dizendo, beija uma cruzinha que traz pendente ao pescoço.) PEDESTRE – Esta história eu já ouvi muitas vezes, e faz-me sono...
ANACLETA – Pois dorme.
PEDESTRE – Assim era eu tolo. .. Quem se casa não dorme, ou... Bem sei o que digo.
ANACLETA – Então vai ouvindo. Como recolhida, tive quatrocentos mil-réis de dote... E tu te casaste comigo por causa desses quatrocentos mil-réis, e só por eles.
PEDESTRE – Eu os daria agora a quem me livrasse da pensão de te guardar.
ANACLETA – E deixei assim uma habitação de paz por este inferno em que vivo. Oh, mas estou resolvida, tomarei uma resolução. Fugirei desta casa, onde vivo como miserável escrava; irei ter com meus benfeitores, contar-lhes-ei o que tenho sofrido desde que os deixei. Pedirei justiça, para mim e para tua primeira vítima... Oh, recorda-te bem, André, que tua primeira mulher, a infeliz mãe de Balbina, morreu arrebentada de desgostos, e que teus loucos ciúmes abriram-lhe a sepultura...
PEDESTRE – Morreu para minha tranqüilidade; já não é preciso vigiá-la...
ANACLETA – Oh, que monstro!
PEDESTRE – Anacleta! Anacleta! Tu queres pregar-me alguma! Nunca te ouvi falar assim, e se agora o fazes, é que te sentes culpada...
ANACLETA – Não, é que me sinto cansada; já não posso com esta vida; não quero morrer como ela.
PEDESTRE – Até agora tenho-te tratado como um fidalgo, nada te tem faltado, a não ser a liberdade...
ANACLETA, à parte – É o necessário...
PEDESTRE – Confiava em ti... porque tinha sempre a minha porta fechada. Mas minha filha enganou-me, apesar das portas fechadas, e tu também me enganarás...
ANACLETA – Oh!
PEDESTRE, com voz concentrada – Se é que já não me enganaste!
ANACLETA – Isto é muito!
PEDESTRE, pegando-lhe pelo braço – Mulher, se eu tivesse a mais pequena desconfiança, o menor indício que... bem me entendes... eu... eu... te mataria!
ANACLETA, recuando, horrorizada – Ah!
PEDESTRE, caminhando para ela – Sim, a minha afronta eu lavaria no teu sangue, e a minha... (Aqui vê ele no seio da mulher a ponta da carta que Paulino meteu
por baixo da porta e que ela apanhou, e com rapidez a arrebata.)
ANACLETA – Ah! (À parte:) Estou perdida!
PEDESTRE, com a carta na mão – Uma carta! Hoje já são duas! Chovem cartas em minha casa, apesar das portas fechadas! Ela também! (Indo para Anacleta:) De quem é esta carta? Eu tremo de a ler!
ANACLETA – Esta carta?
PEDESTRE – Sim!
ANACLETA – Não sei...
PEDESTRE – Oh! (Abrindo a carta com furor e amarrotando-a nas mãos:) Eila! (Arredando-a dos olhos, todo trêmulo.)
ANACLETA, suplicante – André!
PEDESTRE – A prova da minha desonra! (Tomando-a pelo braço, a conduz para junto da vela que está sobre a mesa.)
ANACLETA – Deixai-me! O que queres de mim?
PEDESTRE, apresentando-lhe a carta à luz da vela – Lê!
ANACLETA – André, piedade! (Muito aterrorizada.)
PEDESTRE – Lê comigo! (Lendo:) “Minha bela Anacleta...
ANACLETA, repetindo – Minha bela Anacleta...
PEDESTRE, lendo – ... Teu marido é um animal...
ANACLETA, repetindo – ... Teu marido é um animal...
PEDESTRE, no mesmo – ... e tu és um anjo.
ANACLETA, no mesmo – ... e tu és um anjo.
PEDESTRE, no mesmo – Esta noite irei ver-te...
ANACLETA, no mesmo – Esta noite irei ver-te...
PEDESTRE, no mesmo – ... e se não tiver a fortuna de encontrar-te...
ANACLETA, no mesmo – ... e se não tiver a fortuna de encontrar-te...
PEDESTRE, no mesmo – ... deixar-te-ei esta carta...
ANACLETA, no mesmo – ... deixar-te-ei esta carta...
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.