Por Machado de Assis (1906)
— Qual? Dize.
D. HELENA
— Casar.
D. CECÍLIA
— Oh! não zombes de mim! Tu também amaste, Helena; deves respeitar estas angústias. Não tornar a ver o meu Henrique é uma idéia intolerável. Anda, minha irmãzinha. (Ajoelha-se inclinando o corpo sobre o regaço de D. Helena.) Salva-me! És tão inteligente, que hás de achar por força alguma idéia; anda, pensa!
D. HELENA, beijando-lhe a testa
— Criança! supões que seja coisa tão fácil assim?
D. CECÍLIA
— Para ti há de ser fácil.
D. HELENA
— Lisonjeira! (Pega maquinalmente no livro deixado pelo barão sobre a cadeira.) A boa vontade não pode tudo, é preciso... (Tem aberto o livro.) Que livro é este?... Ah! talvez do barão.
D. CECÍLIA
— Mas vamos, continua...
D. HELENA
— Isto há de ser sueco... trata talvez de botânica. Sabes sueco?
D. CECÍLIA
— Helena!
D. HELENA
— Quem sabe se este livro pode salvar tudo? (Depois de um instante de reflexão.) Sim, é possível. Tratará de botânica?
D. CECÍLIA
— Trata.
D. HELENA
— Quem te disse?
D. CECÍLIA
— Ouvi dizer ao barão, trata das...
D. HELENA
— Das...
D. CECÍLIA
— Das gramíneas.
D. HELENA
— Só das gramíneas?
D. CECÍLIA
— Não sei; foi premiado pela Academia de Estocolmo.
D. HELENA
— De Estocolmo. Bem. (Levanta-se.)
D. CECÍLIA, levantando-se
— Mas que é?
D. HELENA
— Vou mandar-lhe o livro...
D. CECÍLIA
— Que mais?
D. HELENA
— Com um bilhete.
D. CECÍLIA, olhando para a direita
— Não é preciso; lá vem ele.
D. HELENA
— Ah!
D. CECÍLIA
— Que vais fazer?
D. HELENA
— Dar-lhe o livro.
D. CECÍLIA
— O livro, e...
D. HELENA
— E as despedidas.
D. CECÍLIA
— Não compreendo.
D. HELENA
— Espera e verás.
D. CECÍLIA
— Não posso encará-lo; adeus.
D. HELENA
— Cecília! (D. Cecília sai)
Cena IX
D. Helena, Barão
BARÃO, à porta
— Perdão, minha senhora; eu trazia um livro há pouco...
D. HELENA , com o livro na mão
— Será este?
BARÃO, caminhando para ela
— Justamente.
D. HELENA
— Escrito em sueco, penso eu...
BARÃO
— Em sueco.
D. HELENA
— Trata naturalmente de botânica.
BARÃO
— Das gramíneas
D. HELENA, com interesse
— Das gramíneas.
BARÃO
— De que se espanta?
D. HELENA
— Um livro publicado...
BARÃO
— Há quatro meses.
D. HELENA
— Premiado pela Academia de Estocolmo?
BARÃO, admirado
— É verdade, mas...
D. HELENA
— Que pena que eu não saiba sueco!
BARÃO
— Tinha notícia do livro?
D. HELENA
— Certamente. Ando ansiosa por lê-lo.
BARÃO
—Perdão, minha senhora. Sabe botânica?
D. HELENA
— Não ouso dizer que sim, estudo alguma coisa; leio quando posso. É ciência profunda e encantadora.
BARÃO, com calor
(continua...)
ASSIS, Machado de. Lição de botânica. Rio de Janeiro, 1906.