Por Martins Pena (1845)
JOÃO, só – Agora que lá dentro estão todos entretidos, é boa ocasião de cercar minha bela ilhoazinha para dar-lhe um abraçozinho. Aonde estará ela? (Chamando com cautela:) Maria, Maria? Tenho medo que minha mulher veja-me aqui. É velha, mais tem ciúmes como um mouro. Quem manda ser velha? Estará no quarto? (Vai espiar na casinha.) Maria? Nada. Lá dentro ainda dançam; estão devertidos e não darão por minha falta. Vou esconder-me no seu quarto e lá esperarei para surpreendê-la. Oh, que surpresa! Só assim, porque ela é arisca como o diabo. Dou-lhe um abraçozinho e depois safo-me na pontinha dos pés. Oh, que surpresa! Que contentamento! (Esfrega as mãos. Júlio, que a este tempo entra vindo do fundo, chama por ele; João, que está quase junto à porta, volta-se zangado.)
CENA IX
Júlio e João.
JÚLIO – Sr. João Félix?
JOÃO, voltando-se – Quem é?
JÚLIO – Se quisesse ter a bondade de ouvir-me por alguns instantes com atenção...
JOÃO, impaciente – O que tens agora a dizer-me, homem? Vá dançar.
JÚLIO – Pensamentos muito sérios ocupam-se neste momento para eu poder dançar.
JOÃO – Então o que é?
JÚLIO – Desculpe a minha franqueza...
JOÃO – Avie-se, que tenho pressa.
JÚLIO – Eu amo sua filha.
JOÃO – E que tenho eu com isso?
JÚLIO – Mas é que eu a amo com adoração, como nunca se amou, e pretendia...
JOÃO – Vá dizer a ela que eu lhe ordeno que dance com o senhor uma contradança; ande, vá, vá! (Empurrando-o)
JÚLIO – Não é por tão pequeno favor que eu ouso encomodá-lo.
JOÃO , à parte – Que impertinência! E eu a perder tempo e ocasião.
JÚLIO – Terei ânimo em falar, visto que o senhor não reprovou o meu amor.
JOÃO – Bem vejo que tens ânimo, mas pressa decerto que não tens. Pois é o que eu tenho.
JÚLIO – Serei breve. Concede-me a mão de sua filha?
JOÃO – Se é para dançar, já lhe dei.
JÚLIO – Não senhor, é para casar.
JOÃO – Para casar? Sempre pensei que o senhor tivesse mais juízo. Pois de noute, no meio do campo e a estas horas é que o senhor vem pedir minha filha, obrigando-me a estar aqui a cabeça ao sereno? Já eu estou constipado. (Amarra um lenço na cabeça.)
JÚLIO – Só motivos imperiosos me obrigariam a dar este passo tão precipitado.
JOÃO – Precipitado ou não precipitado, não lhe dou minha filha! (Durante a continuação desta cena João passeia pela cena, dando voltas de um para outro lado; passa por trás da carroça, vai até o fundo, volta, etc., e Júlio o segue sempre falando.)
JÚLIO – Mas senhor, Vossa Senhoria não tem razão em responder-me deste modo. Eu decerto teria escolhido melhor ocasião; há porém acontecimentos que nos levam, mau grado nosso, a dar um passo que à primeira vista parece loucura. A causa deve ser indagada. E isto é o que Vossa Senhoria deveria fazer. Não se trata de um negócio de pouca monta. A minha proposição não deve ser assim recebida. Sei que a sua filha é um partido vantajoso ainda mesmo para um homem ambicioso, mas em mim não se dá essa idéia. Procuro os dotes morais de que é ornada, as virtudes que a fazem tão amável e encantadora. Conheço-a de perto, tenho tido a honra de freqüentar sua casa. Rogo a Vossa Senhoria que me dê um momento de atenção. Esse exercício violento pode-lhe fazer mal... Minha família é muito conhecida nesta cidade; não é rica, é verdade, mas nem sempre a riqueza constitui felicidade. Meu pai foi desembargador, e minha aliança com a filha de Vossa Senhoria não pode envergonhar. Sou negociante, ainda que principiante; posso ainda fazer grande fortuna e ouso dizer que a Sra. D. Clementina não me vê com indiferença...
JOÃO, voltando-se muito zangado para Júlio – Não lhe dou minha filha, não lhe dou, não lhe dou! E tenho dito.
JÚLIO – Atenda-me!
JOÃO – Aonde viu o senhor dar-se caça a um pai de semelhante maneira?
JÚLIO – Desculpe-me, é o meu amor a causa de...
JOÃO – Homem, não me quebre mais a cabeça! Não quero, não quero e não quero, e vá-se com os diabos! Não só de minha presença, como de minha casa. Vá-se, vá-se! (Empurrando.)
JÚLIO, com altivez – Basta, senhor! Até agora recebia uma denegação e com paciência a sofri; mas agora é um insulto!
JOÃO – Seja lá o que quiser.
JÚLIO – E eu não me demorarei um só instante em sua casa.
JOÃO – Faz-me muito favor. (Júlio sai arrebatado.)
CENA X
João, só, (e depois Luís.)
JOÃO – E que tal lhe parece a impertinência? Irra! Casar-se com minha filha! Um pobre diabo que só vive do seu insignificante ordenado. Agora, ainda que fosse rico, e muito rico, não lha dava. (João vai a entrar no quarto e aparece Luís no fundo, gritando.)
LUÍS – Tio João? Tio João?
JOÃO – Outro!
LUÍS, junto dele – Quero
pedir-lhe um grande favor. Trata-se de minha prima.
(continua...)
PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.