Por Martins Pena (1845)
Bolingbrok — Para quê, John?
John — Saberás (Entra na barraca.)
CENA X
Bolingbrok (só) — John vai fazer asneira... Mim não sabe o que ele quer... Não importa; rouba my Clarice e fica contente. Velho macaco está zangado. By God! Inglês faz tudo, pode tudo; está muito satisfeita. (Esfregando as mãos:) Inglês não deixa brinca com ele, no! Ah, Clarice, my dear, mim será tua marida. Yes!
Vozes, dentro — Lá vai a máquina, lá vai a máquina!
Bolingbrok — Máquina? Oh, este é belo, lá vai a máquina!
CENA XI
Entra Narciso, Clarice, Virgínia e povo, olhjando para uma máquina que atravessa no fundo do teatro.
Todos — Lá vai a máquina, lá vai a máquina!
Bolingbrok (correndo para o fundo) — Máquina, máquina! (A máquina desaparece e todos ficam em cena como olhando para ela.)
CENA XII
Entra pela barraca John, vestido de mágico, trazendo na mão uma buzina. John toca a buzina.
Todos — O mágico! O mágico!
John — Aproximai-vos! Aproximai-vos! (Todos se aproximam.) O futuro é de Deus! O céu é a página de seu imenso livro, e os astros os caracteres de sua ciência; e quem lê nos astros conhece o futuro... o futuro! Homens e mulheres, moços e velhos, não quereis conhecer o vosso futuro?
Todos — Eu quero! Eu quero!
John — Silêncio! A inspiração se apodera de mim, a verdade brilha a meus olhos, e o porvir se desdobra diante de mim!
Narciso (à parte) — Tenho vontade de o confundir. (Alto:) Senhor mágico, desejava saber se pela minha fisionomia podeis saber quem eu sou.
John — Aproxima-te. Este olhar de porco... estas orelhas de burro pertencem a Narciso das Neves.
Todos — Oh!
Narciso — Sabe meu nome e sobrenome!
John — Nenhuma qualidade boa descubro em ti; só vícios vejo... És avarento, grosseiro, cabeçudo, egoísta...
Todos (riem-se) — Ah, ah, ah!
Narciso — Basta, basta, diabo!
John (para Clarice) — E vós, minha menina, nada quereis saber?
Clarice — Eu, senhor?
Virgínia — Vai, não tenhas medo.
John — Mostrai-me vossa mão. (Examinando sua mão e falando-lhe mais baixo:) Esta linha me diz que teu coração não está livre. Aquele que amas não é da tua nação, mas é um homem honrado e leal; dele te podes fiar.
Clarice — E vêde tudo isto em minha mão?
John — Céus!
Clarice — Senhor!
John — Esta outra linha faz-me conhecer que existe um grande obstáculo à vossa união; é preciso superá-lo, seguir aquele que amas; do contrário, acabarás em um convento.
Clarice — Em um convento? Morrer solteira?
John — O destino fala por meus lábio; pensa e decide.
Clarice — Meu Deus!
Virgínia -— Clarice, que tens, que te disse ele?
Clarice — A mim? Nada, nada. (À parte:) Meu Deus!
John (para Henriqueta) — E tu, pobre abandonada, queres que te diga o futuro?
Henriqueta — Abandonada? A primeira palavra é uma verdade... Dize-me o que devo esperar no mundo.
John — Não querei primeiro que te diga aonde está o infiel?
Henriqueta — Oh, dizei-me!
John — Dentro de uma hora o encontrarás aqui.
Henriqueta — Aqui?
John — Sim.
Henriqueta — Mil graças, senhor mágico. (À parte:) Ah, Jeremias da minha alma, se te pilho...
Virgínia — Agora eu.
John (tomando pela mão e conduzindo-a à parte) — Sim, agora tu, minha Virgínia, minha Virgínia a quem amo...
Virgínia — Ah, que ouço?
Narciso — E lá! Que é lá isso?
John — Silêncio!
Narciso — Isso é demais, é...
John — Silêncio!
Todos — Silêncio!
John — Cala-te, velho insensato! Vês aquela estrela? (Olham todos.) Preside ao destino desta jovem. Olhai todos se empalidece, olhai! (Narciso fica olhando para a estrela.)
John (à parte) — Minha Virgínia!
Virgínia — És tu, John?
John — Enquanto estiverem entretidos com o fogo, vem ter comigo, que aqui estarei à tua espera.
Virgínia — Sim.
Narciso (olhando para a estrela) — Qual empalidece! Olá, nada! Isto não está bom... Virgínia salta para cá; parece-me maroteira.
John — Quem mais quer saber do futuro?
Vozes — Eu! Eu! Eu!
John —
Aproxime-se cada um por sua vez. (Aqui ouve-se dentro o estrondo de bomba.)
(continua...)
PENA, Martins. As Casadas Solteiras. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17001 . Acesso em: 28 jan. 2026.