Por José de Alencar (1874)
Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda.
Todos invejam a glória de Jaguarê, que ontem era o primeiro entre eles, e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes guerreiros.
Por detrás da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito pátrio não podem ser admitidas nas festas guerreiras.
De longe acompanham silenciosas, com os olhos, as velhas aos filhos, as esposas aos seus guerreiros, e as virgens aos noivos.
Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ousam murmurar uma palavra.
Entre elas está Jandira, a doce virgem, cujos negros olhos não se cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor.
Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao jovem caçador, para ter a felicidade de servi-lo como escrava na paz, e acompanhá-lo como esposa ao combate.
No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.
Defronte dele, Pojucã, no corpo que a ferida não abateu, mostra a grande alma, serena em face dos inimigos.
Camacã troou a inúbia para ordenar silêncio e o filho começou
— Guerreiros araguaias, ouvi a minha história de guerra.
"Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um nome famoso.
"Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para as águas sem fim, e Jaguarê disse
"O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; ele será a fama do guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá ao céu.
"Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu por ele.
"O sol despediu-se e voltou; uma, duas, três vezes. No último sol Jaguarê encontrou um guerreiro da nação tocantim, senhora do grande rio.
"Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupã enviou a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra?
"Ele aí está diante de vós.
"É o grande Pojucã, o feroz matador de gente, chefe da tribo mais valente da poderosa nação dos tocantins, senhores do grande rio.
"Vós que o tendes aqui presente, vede como é terrível o seu aspecto, mas só eu que o pelejei conheço o seu valor no combate.
"O tacape em sua mão possante é como o tronco do ubiratã que brotou no rochedo e cresceu.
"Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar de sua mão e foi obrigado a despedaçá-lo.
"Os braços de Pojucã, quando ele os estende na luta, não há quem os vergue; são dois penedos que saem da terra.
"Seu corpo é a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo Camacã, o pode abalar.
"Pojucã era o varão mais forte e o mais valente guerreiro que o sol tinha visto até aquele momento.
"Foi este, guerreiros araguaias, o herói que ofereceu combate ao filho de Camacã; e Jaguarê aceitou, porque logo conheceu que havia encontrado um inimigo digno do seu valor.
"Ele vos contempla, guerreiros araguaias. Se alguém duvida da palavra de
Jaguarê e da força do guerreiro tocantim, chame-o a combate e saberá quem é Pojucã."
O chefe tocantim lançou um olhar ameaçador à multidão dos guerreiros; mas nenhum ousou aceitar o desafio.
Pojucã alçou a mão em sinal de que desejava falar; todos escutaram com respeito o herói, ainda maior na desgraça.
— Guerreiros araguaias, ouvi a voz de Pojucã, vosso inimigo, que afronta as iras dos fortes e despreza a vingança dos fracos.
"Pojucã, guerreiro chefe da grande nação tocantim, jamais encontrou guerreiro que resistisse à força de seu braço invencível.
"Mas Tupã, cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de Pojucã, como vencedor, emprestou sua força a Jaguarê, o maior guerreiro que já pisou a terra.
"Eu que senti o ímpeto de sua coragem, posso dizer-vos que só o sangue tocantim é capaz de gerar um guerreiro tão poderoso.
"Foi alguma virgem araguaia que vagando pela floresta encontrou Pojucã, e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro.
"Seu braço é como o corisco do céu; e a sua força como a tempestade que desce das nuvens."
Calou-se Pojucã; e Jaguarê continuou o seu canto de guerra
"Quando a sombra começava a descer da crista da montanha, Pojucã e Jaguarê caminharam um contra o outro.
"Toda a noite combateram. O sol nascendo veio achá-los ainda na peleja, como os deixara; nem vencidos, nem vencedores.
"Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza do corpo, e na destreza das armas.
"Mas nenhum consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois ambos queriam ser o primeiro.
"Foi então que o chefe tocantim ganhou na corrida a lança de duas pontas, que Jaguarê havia fabricado.
"Três vezes seu punho robusto a brandiu, e três vezes ela escapou-lhe da mão, como a serpente das garras do gavião.
"Mais uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lança, escrava de Jaguarê, cravou o peito do inimigo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.