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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  A boca mimosa e breve, conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do sorriso. Mas quando o brinco iluminava essa fisionomia, e o capricho quebrava-lhe a harmonia das linhas

do suave perfil, era cobrir-se com a máscara do rapazinho estouvado, que ela teria sido sem dúvida, se a natureza não lhe trocasse o destino.   Nesse prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela alma tem facetas como o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz que a fere.  

Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação. A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela. 

  Cheia de carícias e gentilezas no princípio do passeio, fechara de repente a flor de sua graça e envolvera-se naqueles ares zombeteiros, que pungiam como espinhos o coração de Miguel. Poucos momentos antes, estremecera de susto vendo armar-se uma espingarda para atirar a um passarinho; e logo após arrostara sem hesitar a sanha de um assassino feroz, cujo senho incutia pavor aos mais intrépidos. 

  E assim é tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada instante, sua existência tem a constância da volubilidade. Na vaga flutuação dessa alma, como no seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra apaga a luz; uma forma devanece a outra; ela é a imagem de tudo, menos de si própria. 

 Teria o rapaz dado vinte passos quando a menina o chamou, mas com ar de remoque: 

- Escute!... Nhô Miguel, ora escute! 

  Como não a atendesse o companheiro, que se fingia ou estava deveras zangado, Inhá saltou da tronqueira, e alcançando o rebelde de uma corrida, tomou-lhe o caminho. 

- Onde vai? 

- Caçar. 

- Depois; agora vamos à fazenda. 

- Eu não! disse Miguel prontamente. 

- Que pirraça é esta? 

- Não tenho que fazer lá. 

- Mas tenho eu. 

- Todos os dias? perguntou Miguel fitando nela um olhar perscrutador. 

- Se eu gosto! 

  Essa ingênua confissão, fê-la a menina com um gesto encantador, rasgando os grandes olhos puros e brandos, como se abrisse os seios d’alma ao pensamento suspeitoso do companheiro. Foi o olhar deste que abaixou-se encadeado e cego com a reverberação; e o rubor queimou-lhe as faces, enquanto a menina banhava-se em um sorriso de canduras. 

- Pois vá só! replicou o rapaz virando. 

- Para Linda agastar-se comigo? 

- Não tenha susto. 

- Você é um ingrato, nhô Miguel: não paga o bem que lhe querem. 

- Deixe-se desses brinquedos, Inhá. É por isso mesmo que eu não vou mais à fazenda e também para... não ver certas coisas. 

- O que?... Mecê, diga; por favor! acudiu a menina para bulir com o rapaz. 

- Cuida que eu não reparo como Afonso brinca tanto com mecê? 

- Mecê, hein?... 

- Que me importa! Hei de dizer mecê. 

- Está disfarçando! Não quer que se fale dos segredinhos com o Afonso? 

- E faz mal isso? perguntou a menina com sincera surpresa. 

  Aumentou-se o vexame de Miguel, que mordia os beiços com o desejo de soltar uma palavra, e se continha pelo receio do desagrado da menina. 

- Mas não vê que Afonso gosta de você. 

- Estimo bem! disse Inhá dando uma pirueta. 

- Então?... 

- Acabe! 

(continua...)

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