Por Machado de Assis (1876)
A situação, entretanto, complicava-se, toda a família de João Aguiar dizia-lhe que a sua verdadeira e melhor noiva era a filha do desembargador. Para acabar com todas essas insinuações, e seguir os impulsos do seu coração, teve o bacharel idéia de raptar Cecília, idéia extravagante e só filha do desespero, visto que o pai e a mãe da namorada nenhum obstáculo punham ao casamento deles. Ele mesmo reconheceu que o recurso era um despropósito. Ainda assim disse-o a Serafina, que amigavelmente o repreendeu:
— Que idéia foi essa! exclamou a moça, além de desnecessário, não era... não era decorosa. Olhe, se fizesse isso nunca mais devia falar-me...
— Não me perdoaria?
— Nunca!
— Entretanto, a minha posição é dura e triste.
— Não o é menos a minha.
— Ser amado, poder ser feliz tranqüilamente feliz para todos os dias da minha vida...
— Oh! isso!
— Não crê?
— Quisera crer. Mas está-me a parecer que a felicidade que sonhamos quase nunca sai à medida dos nossos desejos, e que mais vale uma quimera que uma realidade.
— Adivinho, disse João Aguiar.
— Adivinha o quê?
— Algum arrufo.
— Oh! não! nunca estivemos melhor; nunca andamos mais tranqüilos do que agora.
— Mas...
— Mas não permite que às vezes a dúvida entre no coração? Não é ele do mesmo barro que os outros?
João Aguiar refletiu alguns instantes.
— Talvez tenha razão, disse ele enfim, a realidade não será sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo é uma harmonia na vida, é uma grande perfeição do homem. Se víssemos logo a realidade como ela há de ser quem daria um passo para ser feliz?...
— Isso é verdade! exclamou a moça e deixou-se ficar pensativa enquanto o bacharel lhe contemplava a admirável cabeça e a graciosa maneira com que ela trazia os cabelos penteados.
A leitora há de desconfiar muita coisa às teorias dos dois confidentes relativamente à felicidade. Pela minha parte, posso afiançar que João Aguiar não pensava uma só palavra que disse; não o pensava antes, quero eu dizer; ela porém tinha o secreto poder de lhe influir as suas idéias e sentimentos. Não poucas vezes dizia ele que se ela fosse fada podia dispensar a vara de condão; bastava falar.
IV
Um dia, Serafina recebeu uma carta de Tavares dizendo-lhe que não voltaria mais à casa de seu pai, por este lhe haver mostrado má cara nas últimas vezes que ele lá estivera. Má cara é exageração de Tavares, cuja desconfiança era extrema e às vezes pueril; é certo que o desembargador não gostava dele, depois que soube das intenções com que ali ia, e é possível, é até certo que o seu modo afetuoso para com ele sofreu alguma diminuição. A fantasia de Tavares é que fez daquilo má cara.
Eu aposto que o leitor, em caso igual, redobrava de atenções com o pai, a ver se lhe reconquistava as boas graças, e entretanto ia gozando a fortuna de ver e contemplar a dona dos seus pensamentos. Tavares não fez assim; tratou logo de romper as suas relações.
Serafina sentiu sinceramente esta resolução do namorado. Escreveu-lhe dizendo que refletisse bem e voltasse atrás. Mas o namorado era homem teimoso; meteu os pés à parede, e não voltou.
Jurar-lhe amor isso fez ele, e não deixava de lhe escrever todos os dias, cartas muito longas, muito repassadas de sentimento e de esperanças.
João Aguiar soube do que se passara e procurou por sua vez dissuadi-lo da funesta resolução.
Tudo foi baldado.
— A desconfiança é o único defeito dele, dizia Serafina ao filho do comendador; mas é grande.
— É um defeito bom e mau, observou João Aguiar.
— Não é sempre mau.
— Mas como não há criatura perfeita, é justo relevar-lhe esse único defeito.
— Oh! de certo; contudo...
— Contudo?
— Preferia que o defeito fosse outro.
— Outro qual?
— Outro qualquer. A desconfiança é uma triste companheira; arreda toda a felicidade.
— Eu a esse respeito, não tenho motivo de queixa... Cecília tem a virtude oposta num grau que me parece excessivo. Há nela um quê de simplória...
— Oh!
Aquele oh de Serafina foi como que um protesto e repreensão, mas acompanhado de um sorriso, não digo aprovador, mas benévolo. Defendia a moça ausente, mas talvez achasse que João Aguiar tinha razão.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Longe dos olhos.... Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.