ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
Neste momento achavam-se as duas perto de uma janela. Tito conversava no sofá com Azevedo. Diogo refletia profundamente, estendido numa poltrona.
Emília tinha os olhos em Tito. Depois de um silêncio, disse ela para Adelaide:
- Que achas ao tal amigo do teu marido? Parece um presumido. Nunca se apaixonou! É crível?
- Talvez seja verdade.
- Não acredito. Pareces criança! Diz aquilo dos dentes para fora... - É verdade que não tenho maior conhecimento dele...
- Quanto a mim, pareceu-me não ser estranha aquela cara... mas não me lembro!
- Parece ser sincero... mas dizer aquilo é já atrevimento.
- Está claro...
- De que te ris?
- Lembra-me um do mesmo gênero que este, disse Emília. Foi já há tempos. Andava sempre a gabar-se da sua isenção. Dizia que todas as mulheres eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos de um mês. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do que desprezei-o.
- Que fizeste?
- Ah! não sei o que fiz. Santa Astúcia foi quem operou o milagre. Vinguei o sexo e abati um orgulhoso.
- Bem feito!
- Não era menos do que este. Mas falemos de cousas sérias... Recebi as folhas francesas de modas...
- Que há de novo?
- Muita cousa. Amanhã tas mandarei. Repara em um novo corte de mangas. É lindíssimo. Já mandei encomendas para a corte. Em artigos de passeios há fartura e do melhor.
- Para mim quase que é inútil mandar.
- Por quê?
- Quase nunca saio de casa.
- Nem ao menos irás jantar comigo no dia de ano-bom!
- Oh! com toda a certeza!
- Pois vai... Ah! irá o homem? O Sr. Tito?
- Se estiver cá... e quiseres...
- Pois que vá, não faz mal... saberei contê-lo... Creio que não será sempre tão... incivil. Nem sei como podes ficar com esse sangue-frio! A mim faz-me mal aos nervos!
- É-me indiferente.
- Mas a injúria ao sexo... não te indigna?
- Pouco.
- És feliz.
- Que queres que eu faça a um homem que diz aquilo? Se não fosse casada era possível que me indignasse mais. Se fosse livre era provável que lhe fizesse o que fizeste ao outro. Mas eu não posso cuidar dessas cousas...
- Nem ouvindo a preferência do voltarete? Pôr-nos abaixo da dama de copas! E o ar com que ele diz aquilo! Que calma, que indiferença!
- É mau! é mau!
- Merecia castigo...
- Merecia. Queres tu castigá-lo?
Emília fez um gesto de desdém e disse:
- Não vale a pena.
- Mas tu castigaste o outro.
- Sim... mas não vale a pena.
- Dissimulada!
- Por que dizes isso?
- Porque já te vejo meio tentada a uma nova vingança...
- Eu? Ora qual!
- Que tem? Não é crime...
- Não é decerto; mas... veremos.
- Ah! serás capaz?
- Capaz? disse Emília com um gesto de orgulho ofendido.
- Beijar-te-á ele a ponta do sapato?
Emília ficou silenciosa por alguns momentos; depois apontando com o leque para a botina que lhe calçava o pé, disse:
- E hão de ser estes.
Emília e Adelaide se dirigiram para o lado em que se achavam os homens. Tito, que parecia conversar intimamente com Azevedo, interrompeu a conversa para dar atenção às senhoras. Diogo continuava mergulhado na sua meditação.
- Então o que é isso, Sr. Diogo? perguntou Tito. Está meditando? - Ah! perdão, estava distraído!
- Coitado! disse Tito baixo a Azevedo.
Depois, voltando-se para as senhoras:
- Não as incomoda o charuto?
- Não senhor, disse Emília.
- Então, posso continuar a fumar?
- Pode, disse Adelaide.
- É um mau vício, mas é o meu único vício. Quando fumo parece que aspiro a eternidade. Enlevo-me todo e mudo de ser. Divina invenção!
- Dizem que é excelente para os desgostos amorosos, disse Emília com intenção.
- Isso não sei. Mas não é só isto. Depois da invenção do fumo não há solidão possível. É a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto é um verdadeiro Memento homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as coisas: é o aviso filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda a parte. Já é um grande progresso... Mas estou eu a aborrecer com uma dissertação tão pesada. Hão de desculpar... que foi descuido. Ora, a falar a verdade, eu já vou desconfiando; Vossa Excelência olha com olhos tão singulares...
(continua...)