Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Disfarçando a sua indiscrição com o pretexto de esperar alguém que a acompanhava, fez a amazona parar o animal. O vento, volvendo as folhas do álbum, mostrava as aquarelas, que os olhos curiosos tentavam espiar, enquanto a mão afastava o longo véu cor de havana. Esguardando os desenhos, não esquecera a moça o artista que, entregue a seus pensamentos, murmurava palavras soltas. 

Quando o viu beijar com ardor, uma e muitas vezes, a pequena flor agreste, não pôde se conter, e deixou escapar-se a risada harmoniosa, que ainda se desfolhava em sua boca travessa, como uma rosa desabrochada naquela manhã. Debalde quis ela, pousando nos lábios o cabo de madrepérola do chicote, trancar aquele cofre de pérolas e rubis: as jóias se desfiavam rorejando as melodias de uma voz suave. 

O riso fresco de uma linda boca, ainda quando borbulha dele alguma malícia, é sempre doce e saboroso. Por isso Ricardo, apesar de reconhecer que a moça ria-se dele, em vez de zangar-se, riu-se para ela. 

O véu caiu imediatamente, ocultando em uma nuvem espessa o rosto encantador. A uma vibração da rédea, o soberbo isabel desatou o passo elegante em um trote largo, de suprema correção hipiátrica. O quadro arrebatador se tinha apagado de repente, deixando a tela azul erma da imagem sedutora. 

Em compensação porém outro quadro mais cheio desenhou-se no claro do arvoredo. Era formado por uma inglesa gorda, de meia-idade, dessas mulheres que teimam em não envelhecer, e por um português magro, desses homens que aos quarenta anos envelhecem sem cerimônia. 

Estas duas criaturas eram o epigrama vivo uma da outra. Montada a cavalo, com um chapéu de abas enormes, a inglesa parecia, relevem a comparação, um queijo londrino posto em prato alto e coberto com a tampa de cristal. O português, esguio e curvado sobre a mula que o levava, com um chapéu afunilado, era a perfeita imagem de uma salsicha assada num espeto. 

Para que o contraste fosse perfeito, a mulher falando ao homem, estropiava o português de uma maneira horrível; e o homem, escutando-a atentamente como se a compreendesse, arranjava de vez em quando no fundo da garganta um grunhido que tinha pretensão de ser um yes, como uma careta tem a pretensão de ser um sorriso. 

Ricardo vendo o segundo painel sentiu na vista uma sensação igual à do paladar que, saboreando a polpa deliciosa de um cambucá, sentisse de repente o gosto do pepino. Fechou os olhos enquanto o mútuo epigrama em carne e osso passava, acompanhado por um pajem de libré. 

Um novo gorjeio de riso melodioso derramou-se pela solidão; porém Ricardo não ouviu mais do que um eco remoto. 

- De que se ri, menina? perguntou a mestra em inglês. Why do you laugh, baby?

- Bonito romance, Mrs. Trowshy! respondeu a moça na mesma língua.

- Que título tem? 

- Título!...replicou a moça rindo. Não está escrito ainda! Se agora mesmo eu vi o primeiro capítulo!

- Não entendo. 

- Ande lá, Mrs. Trowshy! E a senhora bem caladinha!...

- Mas o que é? 

- Não viu um moço que estava recostado na grama ao lado do caminho?

-      Onde?... Não vi nada! 

- Sim? Não me engana! Pois o moço tinha uma flor na mão, creio que era um girassol, e pensando que eu não o via, ou talvez que era outra pessoa, dava tais beijos na flor, que de cada beijo comia um pedaço. 

- Oh! Oh! engraçado! Exclamava a mestra com um riso puro cockney. 

- Espere; o mais interessante é que ele não cansava de dizer enquanto beijava o seu girassol: My love, my soul, my darling Harriet, my pretty Mrs. Trowshy!

-       Baby, baby!... repetia a mestra afogada em riso. 

O português não entendera meia palavra do diálogo travado em inglês; mas ele julgava que, sendo incumbido de acompanhar a moça e a mestra na qualidade de criado grave, devia compor-se à feição daqueles de quem estava constituído a sombra. 

- Você tem idéias, menina! 

- É sério, Mrs. Trowshy. Palavra que vi o moço. E a senhora também; não disfarce. 

A mestra voltou-se gravemente para o criado, e com os dentes cerrados para destrinçar as palavras portuguesas, como se fossem cabeloiro, disse mais ou menos isto: 

- Senhor Daniel, nós ver young gentleman? 

- Iuh!... iuh!... iuh!... respondeu o Sr. Daniel que ficara em branco. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...34567...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →