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#Dramas#Literatura Brasileira

Mãe

Por José de Alencar (1860)

VICENTE - Em todo o caso aí fica. As ordens! Queira desculpar!

PEIXOTO (a meia voz) - Que foi isso?

VICENTE (idem) - Despejo!

PEIXOTO - Mau!

GOMES - Elisa, vai para dentro. Deixa-me conversar com o senhor.

 

CENA XI

GOMES e PEIXOTO


PEIXOTO - Sabe o que me traz aqui?

GOMES - Sim, senhor. Não lhe posso pagar.

PEIXOTO - Essa é boa! Por quê?

GOMES - Porque não tenho dinheiro.

PEIXOTO - Veremos.

GOMES - Enquanto conservei uma esperança, pedi-lhe que tivesse paciência. Hoje nada espero; nada peço.

PEIXOTO - Que fez do ordenado?

GOMES - Descontei-o seis meses adiantados para viver.

PEIXOTO - A sua mobília?

GOMES - Já não é minha. A pessoa que a comprou deixou-me alugada; e como não lhe tenho pago os aluguéis, vem buscá-la amanhã.

PEIXOTO - E os escravos que possuía?

GOMES - O último saiu desta casa sob o pretexto de ir para a Misericórdia, a fim de que minha filha ignorasse... Foi penhorado!

PEIXOTO - Mas há pouco, vi aqui uma mulata.

GOMES - Era talvez a escrava do meu vizinho do segundo andar.

PEIXOTO - Ah! É verdade. Conheço-a! Do Sr. Jorge?

GOMES - Sim, senhor.

PEIXOTO - Assim, nada lhe resta?

GOMES - Nada absolutamente! Estou na miséria!

PEIXOTO Pois não sei como há de ser. Não estou disposto a perder o meu dinheiro.

GOMES - Se eu pudesse vender-me para pagar-lhe, creia que não hesitaria. Não posso. Que hei de fazer?

PEIXOTO - O senhor não sabe?

GOMES - Sei!...

PEIXOTO - É arranjar dinheiro, se não quer ir parar à cadeia.

GOMES - O senhor insulta-me!

PEIXOTO - Se acha que isto é um insulto, nesse caso é a lei, não sou eu quem o insulta.

GOMES - Cometi algum crime?... É culpa minha se não tenho com que pagar-lhe?

PEIXOTO - Se fosse só isso!

GOMES - Explique-se!

PEIXOTO - É muito simples. O senhor negociou comigo uma letra de quinhentos mil-réis. Tinha o seu aceite; mas estava sacada e endossada pelo Sr. Francisco de Faria, negociante desta praça.

GOMES - O senhor deu-me por ela quatrocentos mil-réis, dos quais ainda tive de pagar cinqüenta ao Sr. Faria.

PEIXOTO - Esta não é a questão. O saque e o endosso são falsos.

GOMES - Falsos!...

PEIXOTO - Faria nunca sacou letras.

GOMES - Mas então quem era a pessoa com quem tratei?

PEIXOTO - É coisa que não me interessa. O senhor responderá à polícia.

GOMES - A policia?... Eu!

PEIXOTO - Está bem visto!... A letra foi negociada com o senhor. Tenho testemunhas. Que me importa essa pessoa?

GOMES - Mas, senhor, não é possível!... Não se condena assim um homem que não tem notas na sua vida.

PEIXOTO - Sr. Gomes, acabemos com isto!... Não lhe quero fazer mal; porém, se às cinco horas da tarde o senhor não tiver o dinheiro para pagar-me, às seis apresento a letra na polícia.

GOMES - Dê-me tempo ao menos para procurar o homem com quem tratei.

PEIXOTO - E o senhor tratou com alguém?

GOMES - Infame!... Duvida de minha palavra!

PEIXOTO - Ah! Quer brigar? Não estou disposto. Até às cinco horas.

GOMES - Meu Deus! Condenado como um falsário!... Não! Já resisti por muito tempo!

 

CENA XII

GOMES e ELISA


ELISA - Meu pai!...

GOMES - Tu ouviste, minha filha?

ELISA - Ouvi tudo.

GOMES - Pois então ouve o resto.

ELISA - Sossegue primeiro.

GOMES - Não há sossego nestes transes. Acabas de saber que estamos na miséria; nada temos, nada devemos esperar. Mas isto não era bastante; aí vem a desonra coroar a miséria.

ELISA -- Mas o que disse aquele homem é uma mentira, não é?

GOMES - Tu duvidaste um momento da probidade de teu pai?

ELISA - Oh! Não, não!

GOMES - Se eu quisesse, já não digo roubar, mas transigir com a minha consciência, os que agora nos desprezam, aí estariam ainda nos importunando com a sua amizade fingida e hipócrita.

ELISA - Não se defenda, meu pai. Eu creio na sua honra, como creio em Deus. Se lho perguntei é porque desejava ouvir de sua boca o desmentido de semelhante calúnia. (Pausa.)

GOMES - Elisa, minha filha!.. Este último golpe é mais forte que minha razão. Muitas vezes já a minha coragem vacilou encarando a miséria: um projeto louco me passou pelo espírito, e esteve bem prestes a realizar-se. Resisti, lembrando-me de ti. À vergonha, à infâmia, minha filha, não posso... não sei resistir!

ELISA - Não pense nisto, meu pai.

GOMES - Quando não se pode viver honrado, morre-se.

ELISA - Quer-se matar!

GOMES - Isto é vida?

ELISA - Meu Deus!... Por piedade!

GOMES - É necessário!

ELISA - E eu, e sua filha? Deixa-a ao desamparo?

(continua...)

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