Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
BENJAMIM (Fingindo medo) – Ah! ah!... credo... vade retro... (Levantando a ponta do lençol) ah! esta alma padecente conheço eu... a voz não engana. (A tremer) uh!... uh!...uh!...
(Finge medo).
BRITES – Por ela seduzida
E em seus braços morrendo...
Sou alma condenada..
E vago padecendo!
(Passa a mão pelo rosto coberto de Benjamim e vai-se)
Ai!
BENJAMIM (Treme) – Uh! uh! uh! (Ao passar da mão) Ai! mi... mi... misericórdia! (Silêncio.) Foi-se... (Descobre-se) A outra alma que deveras me aterrou era portanto a velha enciumada!... divertem-se comigo: pois divirtam-se... a menina Brites saiu sem levar uma oração minha; porque (Em pé e rindo) eu bem sei porque..
Cena XIII
Benjamim e Inês, com o rosto muito apolvilhado, vestido ricamente de almotacel e com imenso véu transparente.
INÊS (Dentro.) – Minha noiva! minha noiva!
BENJAMIM (Fingindo medo) – Ai!... é a alma do almotacel!... estou perdido!... (À parte) E a mezinha! que belo, belo, belo!...
INÊS – Finado sou; mas amo-te! (Indo a Benjamim que recua)
Adivinhei-te e vim:
Por minha noiva quero-te:
Hás de ser minha, sim!
Sim! sim!... (Persegue Benjamim)
BENJAMIM (Recuando) – Oh, trance cruel! alma de sedutor, fugi-te!... onze mil virgens, salvai-me!
INÊS (Perseguindo)— Hás de ser minha, sim! (Aceleram os passos) Sim! sim!...
BENJAMIM – Alma condenada, vade retro! ai, que angústia!...
INÊS (Recuando) – Serás minha noiva!...
BENJAMIM (Recuando menos vivo) – Já me faltam as forças, ai de mim!... (À parte) quero ver só o que o demoninho da moça vai fazer comigo. (Alto) Não posso mais! (Inês toma-o pelo braço) Ai que frio de morte! (À parte) E uma febre de fogo...
INÊS – Amo-te!
BENJAMIM – Mas não ofenda o meu pudor! tomara eu que ela queira ofendê-lo). INÊS – És minha noiva.. dá-me um abraço!...
BENJAMIM – Oh... não! poupe a mísera donzela!...
INÊS – Um abraço! um abraço!...
BENJAMIM – Ai de mim! pois bem, senhor almotacel... eu lhe dou um abraço...
mas um abraço só... depois o senhor me deixa... vai-se embora... me deixa...
INÊS – Oh! vem! (Abraça-o, e separa-se e foge).
BENJAMIM – Agora me deixe... me deixe...
INÊS (À parte) – E que abraço apertado me deu! como está nervosa!.
(A Benjamim) E minha noiva, há de acompanhar-me para o cemitério...
BENJAMIM – Para o cemitério! não... isso não...
INÊS – E dormirá na minha sepultura...
BENJAMIM (Fingindo terror) – Senhor almotacel, tudo quanto quiser, mas não me leve para o cemitério! sou sua noiva, sim!... amo-o... mas tenho medo do cemitério... não me leve... amo-o! quer que lhe dê um beijo?... (Beija a face de Inês) por quem é não me leve! quer outro beijo? (Beija-a) outro? (Beija-a) amo-o! (De joelhos e beijando-lhe as mãos) adoro-o! sou seu escravo... seu escravo!... quero dizer, sua escrava.
JOANA (Saindo de baixo da cama, e pondo a cabeça de fora) – Inês, ela é homem!...
INÊS (Afastando-se confundida) – Oh!...
Cena XIV
Benjamim, Inês, Joana e Brites, que entra.
JOANA – O senhor não é capaz de negar que é varão do sexo masculino.
BENJAMIM (À parte) – Como hei de negá-lo depois que ela fez o descobrimento da América (A Joana) sim senhora, confesso que sou homem... mas inofensivo.
INÊS (À parte) – Agora não posso mais olhar para ele...
JOANA – Mas o senhor abusou... devia ter-nos dito!
BENJAMIM – Foi o Sr. Peres que me ordenou segredo absoluto...
BRITES (À parte) – De que escapei!...
JOANA (À parte) – Coitado do meu Peres!... que aleive lhe levantei... (Alto) Pois bem: como foi ordem do meu homem, conserve o segredo seu e dele; mas guarde também o nosso: o das loucuras desta noite; o senhor não é do sexo masculino... para nós.
BENJAMIM – Não sou, não; eu sou Antonica da Silva para as senhoras... podemos viver santamente na comunidade do nosso sexo (Batem à porta)
JOANA – É Peres que chega. Ele deve ficar pensando que já estamos todas dormindo. Não se esqueça de apagar a luz... venham, meninas (Batem).
BENJAMIM – Sou muito esquecida... é melhor já (Apaga a luz).
JOANA – Andem... Andem...
BENJAMIM (De joelhos beija a mão de Inês, quando ela passa, vão-se Joana, Inês e Brites) – Juro pelos frades franciscanos que não quero mais ser frade (Ergue-se e vai às apalpadelas para a cama).
FIM DO PRIMEIRO ATO
ATO SEGUNDO
Á esquerda, varanda de colunas, tendo no meio cancela de grades e escada para o jardim e pomar que se estende para o fundo, e para a direita; ao fundo e à direita, portão largo, à frente espaço livre e pequenos bancos de pau.
Cena primeira
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.