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#Dramas#Literatura Brasileira

Amor e Pátria

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Os precedentes, Prudêncio, cavalheiros e senhoras

Coro –

Salve o ditoso

Dia propício

De natalício

E de himeneu

Salve, mil vezes,

Noiva adorada,

Abençoada

Por Deus no céu. (Plácido cumprimenta; as senhoras cercam Afonsina, etc)


Plácido – Obrigado, meus senhores, obrigado!

Prudêncio – Muito bem! Excelentemente; e agora queira Deus que o encanto do casamento, que põe a cabeça à roda a todas as moças, queira pelo contrário dar à minha sobrinha a única coisa que lhe falta, isto é, o juízo no seu lugar.

Leonídia – Mano Prudêncio, você esquece o respeito que deve à princesa da festa.

Prudêncio – Pois se eu tenho a cabeça completamente aturdida com os tambores que rufam lá fora, e com os parabéns e alegrias que fervem cá dentro!não sei como hei de haver! Na praça a guerra, que é o meu elemento, e em casa um casamento que e faz encher a boca d’água. Olhe: até me havia esquecido de lhe entregar uma carta, que há pouco veio trazer um criado da nossa prima, a mulher do intendente da polícia.

Leonídia – Uma carta do intendente?...Que novidade haverá?

Plácido – Aposto que adivinhou o casamento de Afonsina...

Leonídia (Lendo) – Meu Deus!...

Plácido – Leonídia muda de cor e treme!...Que será?

Prudêncio – A cartinha, pelo jeito, parece mais um convite de enterro, do que carta de parabéns: quem sabe se não é notícia de alguma bernarda?...Ora, que não se pode ter sossego neste tempo de revoluções!...tomara que eu levasse o diabo a todo o patriota que não é como eu amigo do cômodo.

Plácido – Recebeste, por certo, uma notícia desagradável...

Afonsina – Minha mãe, que há?

Leonídia – Que há de ser?...Minha prima se mostra ressentida, porque não a prevenimos do teu casamento; queixa-se de mim, e declara-se enfadada; mas vou já obrigá-la a fazer as pazes comigo; voltarei dentro em pouco; no entanto, minhas senhoras...

Prudêncio – As honras da casa ficam por minha conta: minhas senhoras, aquela porta dá caminho para o jardim; aquela, meus senhores, abre-se para uma sala de jogo: às senhoras as flores, aos homens as cartas! Vamos... (Repetem o canto e vão-se)

CENA VII

Plácido e Leonídia

Plácido – Houve há pouco uma pessoa, a quem não conseguiste enganar, Leonidia.

Leonídia – Nem tive esse pensamento, meu amigo; lê esta carta; mas lembra-te de que hoje é o dia do casamento de nossa filha: tem coragem e prudência.

Plácido (Lendo) – “Cumpro um dever de amizade e prevenindo-te de que teu marido foi denunciado como inimigo do Príncipe e da causa do Brasil; o governo toma medidas a esse respeito; o denunciante, cujo nome não te posso confiar, é um moço ingrato e perverso, que deve tudo a teu marido, que o acolheu em seu seio e tem sido o seu constante protetor. Vês bem que este aviso, que te dou, pode, se chegar ao conhecimento do governo, comprometer ao intendente. Fala-se na deportação do senhor Plácido; mas há quem trabalhe em seu favor. Adeus.” Infâmia!

Leonídia – Silêncio...

Plácido – Mas é uma horrível calúnia que me levanta!

Leonídia – Sê prudente, meu amigo; convém que não transpire este segredo; eu vou imediatamente falar à minha prima, e conto desfazer toda esta intriga. Deus há de ser por nós..Promete-me ficar sossegado...

Plácido – Sim...sim...vai...e sobretudo, e antes de tudo, traze-me o nome do infame caluniador.

Leonídia – Hei de trazer-te a alegria, mas não me lembrarei da vingança. (Vai-se)

CENA VIII

Plácido e logo Velasco

Plácido – Que abominável trama! Quem será o infame denunciante? (Lendo) “...Um ingrato que me deve tudo” Meu deus! Diz-me a consciência que tenho estendido a mão e socorrido a muitos infelizes... Qual seria então dentre esses o que assim me calunia, e me faz passar pó inimigo de um Príncipe heróico e do país abençoado, que me deu felicidade e riqueza! Por inimigo da causa do Brasil, do Brasil, que é a pátria querida de minha mulher e de minha filha!... e é, em tal circunstância, que nem Luciano me aparece? Oh! nem tenho um amigo a meu lado!

Velasco – É porque não quer voltar os olhos, senhor Plácido.

Plácido – Velasco...senhor Velasco...

Velasco – Velasco, dizia bem; pode tratar-me como um filho, pois que tem sido meu pai.

Plácido – Obrigado.

Velasco – Chamava um amigo seguro: eis-me aqui.

Plácido – Mas...

(continua...)

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