Por Machado de Assis (1877)
Talvez em breve tenha de voltar para o exército. É duro. Quando a gente se afaz a certos lugares e certos hábitos lá lhe custa a mudar... Mas a força maior... Não as incomoda o fumo?
EMÍLIA
Não, senhor!
TITO
Então posso continuar a fumar?
MARGARIDA
Pode.
TITO
É um mau vício, mas é o meu único vício. Quando fumo parece que aspiro a eternidade. Enlevo-me todo e mudo de ser. Divina invenção!
EMÍLIA
Dizem que é excelente para os desgostos amorosos.
TITO
Isso não sei. Mas não é só isto. Depois da invenção do fumo não há solidão possível. É a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto é um verdadeiro Memento homo: reduzindo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as coisas: é o aviso filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda a parte. Já é um grande progresso... Mas aqui estou eu a aborrecê-las com uma dissertação aborrecida... Hão de desculpar... que foi descuido. (fixando o olhar em Emília) Ora, a falar a verdade, eu vou desconfiando; V. Exa. olha-me com uns olhos tão singulares.
EMÍLIA
Não sei se são singulares, mas são os meus.
TITO
Penso que não são os do costume. Está talvez V. Exa. a dizer consigo que eu sou um esquisito, um singular, um...
EMÍLIA
Um vaidoso, é verdade.
TITO
Sétimo mandamento: não levantarás falsos testemunhos.
EMÍLIA
Falsos, diz o mandamento.
TITO
Não me dirá em que sou eu vaidoso?
EMÍLIA
Ah! a isso não respondo eu.
TITO
Por que não quer?
EMÍLIA
Porque... não sei. É uma coisa que se sente, mas que se não pode descobrir. Respira-lhe a vaidade em tudo: no olhar, na palavra, no gesto... mas não se atina com a verdadeira origem de tal doença.
TITO
É pena. Eu tinha grande prazer em ouvir da sua boca o diagnóstico da minha doença. Em compensação pode ouvir da minha o diagnóstico da sua... A sua doença é... Digo?
EMÍLIA
Pode dizer.
TITO
É um despeitozinho.
EMÍLIA
Deveras?
TITO
Despeito pelo que eu disse há pouco.
EMÍLIA
(rindo)
Puro engano!
TITO
É com certeza. Mas é tudo gratuito. Eu não tenho culpa de coisa alguma. A natureza é que me fez assim.
EMÍLIA
Só a natureza?
TITO
E um tanto de estudo. Ora, vou desfiar-lhe as minhas razões. Veja se posso amar ou pretender amar: 1°, não sou bonito...
EMÍLIA
Oh!...
TITO
Agradeço o protesto, mas continuo na mesma opinião: não sou bonito, não sou.
MARGARIDA
Oh!
TITO
(depois de inclinar-se)
2°, não sou curioso, e o amor, se o reduzirmos às suas verdadeiras proporções, não passa de uma curiosidade; 3°, não sou paciente, e nas conquistas amorosas, a paciência é a principal virtude; 4°, finalmente, não sou idiota, porque, se com todos estes defeitos, pretendesse amar, caía na maior falta de razão. Aqui está o que eu sou por natural e por indústria; veja se se pode fazer de mim um Werther...
MARGARIDA
Emília, parece que é sincero.
EMÍLIA
Acreditas?
TITO
Sincero como a verdade.
EMÍLIA
Em último caso, seja ou não seja sincero, que tenho eu com isso?
TITO
Ah! Nada! Nada!
EMÍLIA
O que farei é lamentar aquela que cair na desgraça de pretender tão duro coração... se alguma houver.
TITO
Eu creio que não há. (entra um criado e vai falar a Margarida)
EMÍLIA
Pois é o mais que posso fazer...
MARGARIDA
Dão-me licença por alguns minutos... Volto já.
EMÍLIA
Não te demores!
MARGARIDA
Ficas?
EMÍLIA
Fico. Creio que não há receio...
TITO
Ora, receio... (Margarida entra em casa, o criado sai pelo fundo)
Cena VI
TITO, EMÍLIA
EMÍLIA
Há muito tempo que se dá com o marido de Margarida?
TITO
Desde criança.
EMÍLIA
Ah! foi criança?...
TITO
Ainda hoje sou.
EMÍLIA
(voltando ao sério)
É exatamente o tempo das minhas relações com ela. Nunca me arrependi.
TITO
Nem eu.
EMÍLIA
Houve um tempo em que estivemos separadas; mas isso não trouxe mudança alguma às nossas relações. Foi no tempo do meu primeiro casamento.
TITO
Ah! foi casada duas vezes?
EMÍLIA
Em dois anos.
TITO
E por que enviuvou da primeira?
EMÍLIA
Porque meu marido morreu.
TITO
Mas eu pergunto outra coisa. Por que se fez viúva, mesmo depois da morte de seu primeiro marido? Creio que poderia continuar casada.
EMÍLIA
(continua...)
ASSIS, Machado de. As forças caudinas. In: ___. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Publicado originalmente em 1877