Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Nelson

Por Mário de Andrade (1943)

— Pois ele gostava tanto da paraguaia que acabou cedendo, imaginando que aquilo havia de passar se ela partisse como estava exigindo. Mandou um próprio acompanhá-la. Depois ele ia atrás, Assunção é pequena, e o camarada ia industriado pra ficar por lá, seguindo a moça de longe. E ela foi embora, só, com a trouxinha, sem uma despedida, sem olhar pra trás. Quando ele foi pra entrar no quarto quase nem se podia andar lá dentro, tudo aos montes jogado no chão. Os vestidos estavam estraçalhados de propósito, picados devagar com a tesourinha de unha. As jóias arrebentadas, pedras caras, até o brilhante grande do anel, fora do aro, relumeando na greta do assoalho. E os livros, os objetos, as meias de seda, até as roupas dele, ela não poupou nada. E não tinha levado absolutamente nada. Até a roupa de cama, também picada com a tesourinha, não sobrara nada sem estrago. Mas agora é que vocês vão se assombrar!... Só bem por cima dos dois travesseiros grandes, amontoados de propósito no meio da cama, um por cima do outro, tinha um livro. Esse não estava estragado como os outros. Imaginem que... bom, pra encurtar: era simplesmente uma “História do Paraguai” em espanhol, desses livros resumidos que a gente estudou no grupo. Folheando o livro, ele descobriu justamente na última página do capítulo que falava da guerra com o Brasil, está claro que tudo cheio de mentiras horríveis, ele descobriu naquela letrona dela que mal sabia assinar o nome: “Infames!”

— Quem que era infame?

— Safa, Diva, sua gente mesmo!

— Que “minha gente”?

— Os brasileiros, Diva!

— Eu não sou brasileira!

O rapaz sorrindo acarinhou os cabelos louros, frios dela. O contador ia comentando:

— Foi por causa da guerra do Paraguai... O homem ficou feito doido, não podia mais passar sem ela, se botou atrás da moça, porém ela não houve meios de ceder. E pra não ser mais incomodada, acabou desaparecendo de Assunção, ninguém sabe para onde. Foi uma trapalhada dos dianhos vocês nem imaginam, porque a fazenda, as propriedades não eram mais dele, e ela nunca reclamou nada, desapareceu pra sempre. Até andaram falando que ela suicidou-se, porque continuava apaixonadíssima pelo brasileiro, apesar. Mas isto nunca se conseguiu tirar a limpo. Ele é que vendeu o gado e ficou viajando por todo o sul, sempre com pensão na amante. Quando foi da revolução de 30, se meteu na revolução, sem gosto, sem acreditar em nada, só porque era revolução contra o Brasil. Diz-que ele ia ficando maníaco, odiava o Brasil e dava razão pra Solano Lopes que foi quem declarou a guerra do Paraguai contra nós. Afinal conseguiu vender a fazenda e as casas de Cuiabá, mas dizem que na casa onde ele mora não tem nada. Só que ele prega na parede tudo quanto é notícia ofendendo o Brasil.

— Ah, não! isso não deve ser verdade senão o Querino me contava!

— Por que que só o Querino é que há de saber!

— Ele entrou vários dias na casa pra instalar o gás, já falei!

— Uhm...

Diva não se conteve mais, arrancou:

— Tudo isso é uma mentira muito besta! Por que vocês não conversam noutra coisa!

— Você conhece ele, é?

— Diva hesitou.

—... nnnão. Mas ele sempre vem aqui.

— Você já foi com ele?

— Não, ele quis. Mas falou que eu desculpasse, é muito mais delicado que vocês todos juntos, sabem!

— Isso de delicadeza... Deve ser é algum viciado, vá ver que não é outra coisa.

A garçonette ficou indignada. Se ergueu com brutalidade.

— Arre que vocês também são uns... Ia insultar, enojada, mas se lembrou que era garçonette: Por favor, não olhem tanto pra ele assim! Ele vai sair...

De fato, o homem estava mexendo exagitadamente em dinheiro. Diva foi pra junto dele, achando jeito, com o corpo, de o esconder da curiosidade dos rapazes. Fingia procurar troco. Olhou-o com esperança tristonha:

— Por que o senhor não toma mais um chope... Está quente hoje...

Ele estremeceu muito, devorou-a com os olhos angustiados:

— Por que a senhora quer que eu tome mais chope hoje! Seis não é a minha conta de sempre! Estavam falando de mim naquela mesa, não!

E foi saindo muito rápido, escorraçado, sem olhar ninguém, sem esperar resposta nem troco. Era incontestável que fugia.

Na rua andava com muita pressa, apenas hesitante nas esquinas que acabava dobrando sempre, procurando desnortear perseguidores invisíveis. Afinal, seis quarteirões longe, parou brusco. Estava ofegante, suava muito na noite abafada. Olhou em torno e não tinha ninguém. Certificou-se ainda se ninguém o perseguia, mas positivamente não havia pessoa alguma na rua morta, era já bem mais de uma hora da manhã. Enfim tirava a mão esquerda do bolso e enxugava com algum sossego o suor do rosto. A mão era mesmo repugnante de ver, a pele engelhada, muito vermelha e polida. E assim, justamente por ser o polegar que faltava, a mão parecia um garfo, era horrível.



(continua...)

123456
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →