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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

O Sr. Atanásio tem quarenta e oito anos, é capitalista, casado, sócio que foi de molhados com o Sr. Fialho, bom vizinho, cidadão pacífico, e aos costumes disse nada. Porém, o povo reza que ele, apanhando em flagrante a esposa numa excursão filarmônica às esferas sonorosas com um caixeiro, tão duro e miúdo tocara o compasso no caixeiro com a batuta de uma tranca, que o rapaz expulso a coices chegou à terra natal e expirou oito dias depois, contando o segredo a sua família.

A esposa de Atanásio, depois de encerrar-se quinze dias no seu quarto, viu abrir-se a porta à força, fez o ato de contrição para morrer cristãmente, e ia expirar de pavor, quando o marido lhe abriu os braços e disse: “Estás perdoada; mas, se fazes outra, escavaco-te”. Desde então o porte desta senhora reduz as Fúlvias e Marcelas a condições indignas dos gabos históricos. Pecadora que passe por ela é visão que a enjoa e adoenta. As filhas, quando a escutam discretar em virtudes, cuidam que sua mãe é uma mulher da Bíblia.

Quanto a probidade mercantil, Atanásio José da Silva é contrabandista, e, algum tempo, ia mensalmente à estalagem da Ponta-da-Pedra, em três carruagens de recreio, com sua família e as famílias dos dois amigos presentes, receber cortes de seda, cambraias, rendas e pelames ingleses. Conforme à justiça e às manhas do Porto, a firma de Atanásio é das mais acreditadas na praça, e as gazetas, quando escrevem Atanásio José da Silva, antepõem-lhe ao nome os adjetivos honrado e probo; e, se acontece ir para Caldas ou praias com a mulher, vai sempre o “honrado capitalista com sua virtuosa esposa”.

Pantaleão Mendes Guimarães, quarenta e cinco anos, capitalista, armador, antigo negreiro e “engajador” moderno. Há doze anos que uma frescassa loureira, chamada Francisca Ruiva, lhe coou filtros cupidíneos através das enxúndias do peito, e lhe atorresmou os toicinhos da alma. Pantaleão trasladou do bordel às alcatifas de sua casa a Ruiva saudosa do lundum chorado, investiu-a da governança da despensa, e mais tarde esposou-a, no intento de condecorar socialmente a lama que trouxera do alcouce. E, de feito, D. Francisca Mendes, neste ano de 1847, já logrou a satisfação de se ver também caluniada de “esposa virtuosa” nas gazetas.

Joaquim Antônio Bernardo, negociante por atacado de fazendas brancas, quarenta e um anos, estúpido perversíssimo, antigo gandaieiro, que passara uma doce mocidade subtraindo açúcar mascavo das caixas expostas no Terreiro do Paço, e atual irmão da Misericórdia do Porto e fiscal da mesma. Casou com a mais desbragada polha que deu a Maia, e arreou-a de veludos e cetins para a passear nas praças do Porto com a gáudio dum cornaca vaidoso que expõe o seu elefante ajaezado bizarramente. Esta Lais de trapeira, quando passa espeitorada, recende e trescala o fartum das excreções cutâneas.

Não obstante, a sua recâmara não inveja à de Lésbia o cevo de delícias em que a maiata, Circe digna dos javardos que a esfoçam, ganhou renome que bastaria a felicitar três colarejas. Esta dama já se viu, num periódico, em que se dava conta dum seu baile, nomeada de “ilustre e distinta”. Ambos os epítetos lhe quadravam, ocultos os substantivos. Não o tratavam de virtuosa, porque o localista receou que o termo, revendo ironia, lhe fechasse as portas do seguinte baile.

Eis aqui muito em escorço esboçados os traços dos três amigos de Hermenegildo Fialho Barrosas. Deixá-lo falar agora.

IV TRIBUNAL DE HONRA

― Amigos e senhores – prosseguiu Fialho – a razão desta chamada vão vocês sabê-la!

― Você parece que está aflito, Sr. Hermenegildo?! – acudiu magoadamente Pantaleão.

― Se lhe parece!... É um caso de honra e que me há de atirar à cova!

― Ora deixe-se disso! – sobreveio Joaquim Bernardo. – Então os amigos para que servem? Aqui estamos física e moralmente para tudo que for preciso.

― Meus amigos! – volveu o marido de Ângela – acontece em minha casa o mais extraordinário caso que vocês ouviram...

― Como assim?! – interrompeu o marido de Francisca Ruiva.

― Negócio de mulheres!... Poucas vergonhas de mulheres!... Ainda há quem se case!... – esclareceu Fialho intercortando as palavras com uns suspiros que lhe subiam do estômago à mistura com os arrotos de bacalhau assado do almoço.

― De mulheres?! querem vocês ver!... – disse com espanto Atanásio José da Silva.

― Temos maroteira? – perguntou Pantaleão.

― Ouçam lá. Minha mulher vendeu cinco brilhantes da pulseira de casamento que eu lhe dei, e não diz o que fez a um conto seiscentos e cinqüenta mil réis sonante que recebeu pelos brilhantes. Aqui está o que eu tenho a dizer.

Os três conferentes levantaram-se a um tempo, cruzaram as mãos sobre os ossos sacros respectivos, e começaram a passear cada um para seu lado.

Quem primeiro parou e falou do seguinte modo foi o marido da maiata:

― Física e moralmente falando, sua mulher, amigo Hermenegildo, vendendo os brilhantes e dispondo do dinheiro, deve dizer o que lhe fez, por força ou por jeito. Eu cá por mim pegava dum arrocho, e dizia-lhe: “Ó minha amiga, você diz o que fez ao dinheiro, ou acaba-se aqui hoje o mundo!”

― Amigo Joaquim – contrariou Pantaleão. – Não voto por esse sistema, e queira perdoar. Vamos por partes. O amigo Fialho desconfia de sua mulher?

(continua...)

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