Por Euclides da Cunha (1909)
Porque, na realidade, esta se reconstitui mui longe das nossas plagas. Neste ponto, o rio, que sobre todos desafia o nosso lirismo patriótico, é o menos brasileiro dos rios. É um estranho adversário, entregue dia e noite à faina de solapar a sua própria terra. Herbert Smith, iludido ante a poderosa massa de águas barrentas, que o viajante vê em pleno Oceano antes de ver o Brasil, imaginou-lhe uma tarefa portentosa: a construção de um continente. Explicou: depondo-se aqueles sedimentos do fundo tranqüilo do Atlântico, novas terras aflorariam nas vagas e ao cabo de um esforço milenário encher-se-ia o golfão aberto, que se arqueia do Cabo Orange à Ponta do Gurupi, dilatando-se desta sorte, consideravelmente, para nordeste, as terras paraenses.
The king is building his monument! bradou o naturalista encantado e acomodando às ásperas sílabas britânicas um rapto fantasista capaz de surpreender à mais ensofregada alma latina. Esqueceu-lhe, porém, que aquele originalíssimo sistema hidrográfico não acaba com a terra, ao transpor o Cabo Norte; senão que vai, sem margens, pelo mar dentro, em busca da corrente equatorial, onde aflui, entregando-lhe todo aquele plasma gerador de território. Os seus materiais, distribuídos pelo imenso rio pelásgico que se prolonga com o Gulf-Stream, vão concentrando-se e surgindo a flux, espaçadamente, nas mais longínquas zonas: a partir das costas das Guianas, cujas lagunas, a começar no Amapá, a mais e mais se dessecam avançando em planuras de estepes pelo mar em fora, até aos litorais norte-americanos, da Geórgia e das Carolinas, que se dilatam sem que lhes expliquem o crescer contínuo os breves cursos d’água das vertentes orientais dos Aleganis.
Naqueles lugares, o brasileiro salta: é estrangeiro, e está pisando em terras brasileiras. Antolha-se-lhe um contra-senso pasmoso: à ficção de direito estabelecendo por vezes a extraterritorialidade, que é a pátria sem a terra, contrapõe-se uma outra, rudemente física: a terra sem a pátria. É o efeito maravilhoso de uma espécie de imigração telúrica. A terra abandona o homem. Vai em busca de outras latitudes. E o Amazonas, nesse construir o seu verdadeiro delta em zonas tão remotas do outro hemisfério, traduz, de fato, a viagem incógnita de um território em marcha, mudando-se pelos tempos adiante, sem parar um segundo, e tornando cada vez menores, num desgastamento ininterrupto, as largas superfícies que atravessa.
Não se lhe apontam formações duradouras, ou fixas. Por vezes, nas arqueaduras de seus canais remansam-se as águas fazendo que se deponham os sedimentos conduzidos e as sementes que acarretam. Então as faculdades criadoras do rio despontam surpreendedoramente. O baixio prestes recém-formado e aflorando à superfície, delineia-se, em contornos indecisos; define-se logo, vivamente; dilata-se e ascende, bombeando levemente nas águas; e na ilha que se gera, crescendo e articulando-se a olhos vistos, apontoada de cabuchos, que se alongam e se retorcem à superfície à maneira de tentáculos de um prodigioso organismo — desencadeia-se para logo a luta das espécies vegetais tão viva e tão dramática que nem lhe faltam no baralhamento dos colmos, das hastes ou das ramagens revoltas, estirando-se, enredando e confundindo-se, todos os movimentos convulsivos de uma enorme batalha sem ruídos: dos aningais, que consolidam o tijuco inconsistente com a infibratura dos risomas estirados; aos mangues, que os suplantam e repelem para as bordas, em violentos e tumultuários bracejos; aos javaris altaneiros, que por sua vez recalcam os últimos expelindo-os para as margens apauladas, e senhoreando os tesos consistentes...
Assim se erigiu recentemente a Ilha de Cururu, com dois km² de área; e se reconstroem todas as que se observam acima dos canais de Breves.
Mas formam-se para se destruírem, ou deslocarem-se incessantemente. As ilhas trabalhadas pelas mesmas correntes que as geraram, desbarrancam-se a montante e restauram-se a jusante, e vão lento e lento derivando rio abaixo, ao modo de monstruosos pontões desmastreados, de longas proas abatidas e popas altas, a navegarem dia e noite com velocidade insensível. Por fim, desgastam-se e acabam. A de Urucurituba durou dez anos (1840-1850) mercê da superfície vastíssima; e apagou-se numa enchente...
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.