Por Machado de Assis (1872)
— Eu te digo respondeu Félix; os meus amores são todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estações. Para o meu coração um ano é a eternidade. Não há ternura que vá além de seis meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o coração como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento, mau hóspede.
Menezes ouviu as palavras de Félix com os olhos postos no chão; sorriu ligeiramente quando ele acabou.
— Queres ouvir uma cousa? perguntou.
— Dize.
— O teu cinismo parece-me hipocrisia
— Não é hipocrisia nem cinismo; é temperamento.
— Não creio.
— Por quê?
Meneses não respondeu.
— Quase me arrependo de ser teu amigo, disse ele depois de
— És meu amigo? perguntou Félix com ar de mofa
Meneses parou e encarou o companheiro.
— Duvidas? disse.
— Não duvido; mas ignorava isso até agora; sabes que as nossas relações datam de pouco tempo.
— Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes
— Há.
A conversa tomou outra direção. Meneses ainda tentou falar da moça, mas Félix não lhe prestou atenção. As 3 horas separaram-se, Félix para as Laranjeiras, Meneses para o Rocio.
Meneses era uma boa alma, compassiva e generosa. Tinha em flor o as ilusões da juventude; era entusiasta e sincero; estava totalmente limpo da menor eiva de cálculo. Podia ser que com os anos perdesse algumas das suas qualidades nativas, que nem todos resistem a estes dous terríveis dissolventes: os lances da fortuna e o atrito dos caracteres. Mas naquele tempo ainda não era assim A situação de Cecília tinha-o comovido. Resolveu ir ter com ela.
Cecília ficara resignada, mas triste. Quando Meneses entrou na sala estava ela ao piano, tinha apoiada a cabeça em uma das mãos e corria os dedos pelo teclado. Contou-lhe tudo o que se passara confessou que não esperava a súbita mudança de Félix; que a sua dor fora imensa, e que daria tudo para fazer reviver o recente passa o; mas que não nutria nenhuma esperança de reconciliação
— E se eu tentar fazer alguma cousa?
— Tentará em vão, respondeu ela. Além de que, eu não tenho nenhum direito de prolongar uma felicidade incompatível com a vontade dele. Errei, confiando demais; errarei se tiver ainda uma esperança...
— Quem sabe, Cecília? disse o moço, pondo-lhe a mão no ombro e possível que Félix tenha cedido a um capricho. Virá a arrepender-se depois, mas o seu orgulho não lhe deixará dar o primeiro passo esse caso uma pessoa influente pode convencê-lo de que a primeira gloria e a reparação dos erros.
Cecília levantou os ombros; foi a sua única resposta.
Meneses perguntou se haveria alguma razão de ciúmes.
— Posso jurar-lhe que durante todo este tempo pertenci-lhe exclusivamente. O juramento de Cecília não devia valer muito aos olhos de um homem que conhecesse bem todos os recursos de uma mulher naquelas condições. Mas o nosso Meneses era ingênua em cousas tais. Saiu de lá cheio de piedade. Nessa mesma tarde mandou uma carta as Laranjeiras, justamente na ocasião em que Félix acabava de ler outra carta de Cecília. A carta da moça era tranqüila e até certo ponto nobre. Não lhe fazia nenhuma recriminação, nem implorava nenhum favor. Defendia-se apenas, retirando de si a responsabilidade da separação.
A carta de Meneses era cavalheiresca: descobria o estado da alma de Cecília e não hesitava em chamar ingrato ao prófugo dardânio. Félix sorriu lendo ambas as missivas; depois atirou-as a uma cesta e nunca mais as viu.
CAPÍTULO III / AO SOM DA VALSA
A CASA do coronel podia conter o triplo das pessoas convidadas para o sarau daquela noite; mas o coronel preferia convidar apenas as pessoas mais íntimas e familiares. Era homem pouco cerimonioso, gostava sobretudo da intimidade.
Quando Félix entrou dançava-se uma quadrilha. O coronel foi ter com ele e levou-o para onde estava a mulher que já o esperava com ansiedade, pela razão, dizia ela, de que era um dos poucos rapazes que ainda conversavam com velhas, estando entre moças. Félix sentou-se ao pé de D. Matilde. Estava então de bom humor e conversou alegremente até que a música parou.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.