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#Comédias#Literatura Brasileira

Quase ministro

Por Machado de Assis (1862)

Não ser ministro! V. Exa. não sabe o que está dizendo... Não ser ministro é, por outros termos, deixar o país à beira do abismo com as molas do maquinismo social emperradas... Não ser ministro! Pois é possível que um homem, com os talentos e os instintos de V. Exa. diga semelhante barbaridade? É uma barbaridade. Eu já não estou em mim... Não ser ministro!

MARTINS

Basta, não se aflija desse modo.

MATEUS

Pois não me hei de afligir?

MARTINS

Mas então a sua idéia?

MATEUS

(depois de limpar a testa com o lenço)

A minha idéia é simples como água. Inventei uma peça de artilharia; coisa inteiramente

nova; deixa atrás de si tudo o que até hoje tem sido descoberto. É um invento que põe na mão do país, que o possuir, a soberania do mundo.

MARTINS

Ah! Vejamos.

MATEUS

Não posso explicar o meu segredo, porque seria perdê-lo. Não é que eu duvide da discrição de V. Exa.; longe de mim semelhante idéia; mas é que V. Exa. sabe que estas coisas têm mais virtude quando são inteiramente secretas.

MARTINS

É justo: mas diga-me lá, quais são as propriedades da sua peça?

MATEUS

São espantosas. Primeiramente, eu pretendo denominá-la: O raio de Júpiter, para honrar com um nome majestoso a majestade do meu invento. A peça é montada sobre uma carreta, a que chamarei locomotiva, porque não é outra coisa. Quanto ao modo de operar é aí que está o segredo. A peça tem sempre um depósito de pólvora e bala para carregar, e vapor para mover a máquina. Coloca-se no meio do campo e deixa-se... Não lhe bulam. Em começando o fogo, entra a peça a mover-se em todos os sentidos, descarregando bala sobre bala, aproximando-se ou recuando, segundo a necessidade. Basta uma para destroçar um exército; calcule o que não serão umas doze, como esta. É ou não a soberania do mundo?

MARTINS

Realmente, é espantoso. São peças com juízo.

MATEUS

Exatamente.

MARTINS

Deseja então um privilégio?

MATEUS

Por ora... É natural que a posteridade me faça alguma coisa... Mas tudo isso pertence ao futuro.

MARTINS

Merece, merece.

MATEUS

Contento-me com o privilégio... Devo acrescentar que alguns ingleses, alemães e americanos, que, não sei como, souberam deste invento, já me propuseram, ou a venda dele, ou uma carta de naturalização nos respectivos países; mas eu amo a minha pátria e os meus ministros.

MARTINS

Faz bem.

MATEUS

Está V. Exa, informado das virtudes da minha peça. Naturalmente daqui a pouco é ministro. Posso contar com a sua proteção?

MARTINS

Pode; mas eu não respondo pelos colegas.

MATEUS

Queira V. Exa., e os colegas cederão. Quando um homem tem as qualidades e a inteligência superior de V. Exa., não consulta, domina. Olhe, eu fico descansado a este respeito.

Cena VIII

Os mesmos, SILVEIRA

MARTINS

Fizeste bem em vir. Fica um momento conversando com este senhor. É um inventor e pede um privilégio. Eu vou sair; vou saber novidades. (à parte) Com efeito, a coisa tarda. (alto) Até logo. Aqui estarei sempre às suas ordens. Adeus, Silveira.

SILVEIRA

(baixo a Martins)

Então, deixas-me só?

MARTINS

(baixo)

Agüenta-te. (alto) Até sempre!

MATEUS

Às ordens de V. Exa.

Cena IX

MATEUS, SILVEIRA

MATEUS

Eu também me vou embora. É parente do nosso ministro?

SILVEIRA

Sou primo.

MATEUS

Ah!

SILVEIRA

Então V. S. inventou alguma coisa? Não foi a pólvora?

MATEUS

Não foi, mas cheira a isso... Inventei uma peça.

SILVEIRA

Ah!

MATEUS

Um verdadeiro milagre... Mas não é o primeiro; tenho inventado outras coisas. Houve um tempo em que me zanguei; ninguém fazia caso de mim; recolhi-me ao silêncio, disposto a não inventar mais nada. Finalmente, a vocação sempre vence; comecei de novo a inventar, mas nada fiz ainda que chegasse à minha peça. Hei de dar nome ao século XIX.

Cena X

Os mesmos, LUÍS PEREIRA

PEREIRA

S. Exa. está em casa?

SILVEIRA

Não, senhor. Que desejava?

PEREIRA

Vinha dar-lhe os parabéns.

SILVEIRA

Pode sentar-se.

PEREIRA

Saiu?

SILVEIRA

Há pouco.

PEREIRA

Mas volta?

SILVEIRA

Há de voltar.

PEREIRA

Vinha dar-lhe os parabéns... e convidá-lo.

SILVEIRA

Para quê, se não é curiosidade?

PEREIRA

Para um jantar.

SILVEIRA

Ah! (à parte) Está feito. Este oferece jantares.

PEREIRA

(continua...)

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