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#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

— Estas e muitas mais foram feitas, umas para os suplícios e outras com o único fim de atordoar, desnortear os investigadores. O verdadeiro depósito dos tesouros, onde se encontram arcas de ferro abarrotadas de ouro e pedras finas, acha-se a 430 metros do sopé do morro; aí o ar é quase irrespirável em vista das exalações sulfúricas; é mesmo de crer que o morro não seja mais que o tampo de um vulcão. De tudo isto há documentos irrefutáveis e não só referentes ao Castelo como aos demais subterrâneos, quais os da ilha do Raimundo, próxima à do Governador, e da Fazenda de Santa Cruz e tantos outros que minam a velha cidade de Mem de Sá.

— E o cavalheiro me pode dar alguns apontamentos a respeito?

— Com prazer; o meu maior desejo é elucidar todos os pontos desta interessante história para que o governo não esteja a perder tempo e dinheiro com buscas fatalmente improfícuas — Neste caso...

— Apareça em minha residência; mostrar-lhe-ei os documentos.

— É favor; lá irei hoje mesmo.

— Às oito horas, está dito.

E com um forte aperto de mão, depedimo-nos, de coração palpitando de curiosidade, prelibando o cheiro dos documentos arcaicos e a imaginar toda a complicada tragédia de suplícios inquisitoriais, de pesados lajões, sepultando ouro em barra, e de condessas louras, a desmaiar de amor nas celas do claustro imenso.

Da longa história que ouvimos, fartamente documentada e narrada em linguagem simples e fluente, por um homem de espírito cultivado e arguto conhecedor do assunto, daremos amanhã circunstanciada notícia aos leitores, justamente ávidos de desvendar os mistérios do venerável morro.

O Dr. Rocha Leão escreve-nos, à propósito do palpitante assunto:

“Sr. redator,

Digna-se V.S. dar-me pequeno espaço para uma reclamação. Fui hoje surpreendido com a publicação que fez O Paiz de documentos que foram entregues ao Ex.mo Sr. Presidente da República.

Não tenho a honra de conhecer, nem ao menos de vista, o Ex.mo Sr. Almirante Nepomuceno.

Já há tempos declarei que os documentos que eu possuía sobre o Castelo entreguei-os ao meu finado amigo o engenheiro Jorge Mirandola e não Miranda, quando ele foi há anos à Inglaterra.

Falecendo esse engenheiro em Lisboa, procurei aqui em Icaraí (Niterói) a sua viúva para lhe pedir a entrega dos meus pergaminhos.

Nessa visita fui acompanhado pelo meu amigo Sr. Camanho.

Disse-me a senhora que nenhum papel ou documento se arrecadou em Lisboa.

Agora vejo uma oferta desses pergaminhos que me pertencem, pois estão com o meu nome.

Declaro que são dois pergaminhos antigos, não tinham cor vermelha nenhuma, nem declaração por minha letra donde foram achados; um deles estava dobrado como uma carta e o sobre-scripto é uma cruz longitudinal com cifras que significam o endereço ao Geral da Companhia em Roma.

Além disto, ainda confiei ao finado Mirandola um grosso volume em francês encontrado por mim, com o título Portrait des sciences, com gravuras de colunas e anotado em cifras pelos padres.

Responderei ao artigo do ilustrado Sr. Dr. Vieira Fazenda.

O abaixo assinado teve ao seu dispor os mais importantes documentos do seu finado amigo, o Dr. Alexandre José de Mello Moraes.

Ainda mais descendentes de famílias que governaram o Brasil como os Barretos de Menezes, Telles e outros, em seus papéis colhi notícia de tudo. Bobadella era compadre e amigo do Dr. Francisco Telles de Barreto de Menezes e lhe dizia sempre que um dia apareceriam as riquezas dos padres que eram avultadas e estavam ocultas em vários lugares.

Aguardo a resposta do Ex.mo Sr. Almirante Nepomuceno, relativa aos meus pergaminhos.

Dr. Rocha Leão.”

Correio da Manhã - sexta-feira, 5 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

Os Tesouros dos Jesuítas

Chovia torrencialmente quando apeamos do bonde que nos conduzia à residência daquele senhor alto de bigodes grisalhos e olhar penetrante que ontem apresentamos aos leitores como um grande sabedor das extraordinárias coisas do Morro do Castelo.

Uma ladeira íngreme, lá para os lados de Gamboa, lamacenta e negra a nos recordar o passado Porto Artur com toda a bravura dos vencidos e todo o ridículo dos vencedores.

Céu caliginoso ao alto, de nuvens pardas, pesadas de chuva...

A luz dúbia e intermitente das lamparinas elétricas da Central, que dificilmente nos aponta o caminho da residência do “nosso homem”.

Neste cenário trágico nos encaminhamos pelas tortuosas vilas da Gamboa, à cata das preciosas informações que nos prometera de véspera o senhor alto, de olhos penetrantes.

Há alguma dificuldade em encontrar a casa; a escuridão tenebrosa da noite e da iluminação nos não consente distinguir os números dos portais. Indagamos da vizinhança:

— O Sr. Coelho? Sabe nos dizer onde mora o Sr. Coelho?

— Ali adiante, moço, informa-nos opulenta mulata que goza a noite, refestelada à janela.

Caminhamos; em meio à ladeira íngreme, um velho abanando o cachimbo. Informa-nos:

— O Sr. Coelho mora no 27, passando aquela casa grande, a outra.

O Sr. Coelho, concluímos, é conhecido de toda gente; toda gente nos dá notícias precisas do Sr. Coelho, inda bem...

(continua...)

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