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#Contos#Literatura Brasileira

O carro 13

Por Machado de Assis (1868)

Na minha solidão as suas cartas são um íris de esperança e de felicidade. Mas eu seria mais completamente feliz se pudesse conhecê-la; se me fosse dado vê-la de perto, adorar sob a forma humana este mito que a minha imaginação está criando. Ousarei esperá-lo?

É já grande atrevimento conceber semelhante idéia; mas espero que me perdoará, porque o amor perdoa tudo.

Em qualquer caso, fique certa de que eu sinto-me com forças para corresponder ao seu amor, e adorá-la como merece.

Uma palavra sua, e ver-me-á correr por entre os mais insuperáveis obstáculos. A carta foi para o correio com as indicações necessárias; e Amaro, que ainda hesitou no momento de mandá-la, dirigiu-se à noite para casa da noiva em companhia de Luís Marcondes.

VI

Antonina recebeu o noivo com a mesma alegria do costume. Marcondes agradou a todas as pessoas da casa pelo gênio galhofeiro que tinha, e apesar da tendência para os discursos intermináveis.

Quando, pelas onze horas e meia da noite, saíram de casa de Carvalho, Marcondes apressou-se a dizer ao amigo:

— A tua noiva é linda.

— Não achas?

— Decerto. E parece que te quer muito...

— É por isso que eu lamento ter escrito aquela carta, disse Amaro suspirando.

— Olha que parvo! exclamou Marcondes. Por que motivo há de Deus dar nozes a quem não tem dentes?

— Acreditas que ela responda?

— Se responde! Eu estou traquejado nisto, meu rico!

— Que responderá ela?

— Mil coisas bonitas.

— Afinal em que dará tudo isto? perguntou Amaro. Eu creio que ela gosta de mim... Não te parece?

— Já te disse que sim!

— Estou ansioso por ver a resposta.

— E eu também...

Marcondes dizia consigo mesmo:

— Era bem bom que eu tomasse para mim este romance, porque o palerma estraga tudo. Amaro percebeu que o amigo hesitava em dizer-lhe alguma coisa.

— Em que pensas? perguntou-lhe.

— Penso que tu és um palerma; e sou capaz de continuar o teu romance por minha conta.

— Isso não! já agora deixa-me acabar. Vamos ver que resposta vem.

— Quero que me ajudes, sim?

— Pronto, com a condição de que não hás de ser tolo.

Separaram-se.

Amaro foi para casa, e tarde conciliou o sono. A história das cartas enchia-lhe o espírito; imaginava a mulher misteriosa, construía dentro de si uma figura ideal; dava-lhe cabelos de ouro...

VII

A próxima carta da misteriosa mulher era um hino de amor e de alegria; ela agradecia ao seu amado aquelas linhas; prometia que só deixaria a carta quando morresse. Havia porém dois períodos que aguaram o prazer de Amaro Faria. Um dizia assim: Há dias vi-o passar na rua do Ouvidor com uma família. Disseram-me que o senhor vai casar com uma das moças. Sofri horrivelmente; vai casar, quer dizer que a ama... e esta certeza mata-me!

O outro período pode resumir-se a estes termos:

Quanto ao pedido que me faz de querer ver-me, respondo-lhe que não há de ver-me nunca; nunca, ouviu? Basta que saiba que eu o amo, muito mais do que há de amá-lo a viúva Antonina. Perca a esperança de ver-me.

— Estás vendo, disse Amaro Faria a Marcondes mostrando-lhe a carta, está tudo perdido.

— Oh! pateta! disse-lhe Marcondes. Tu não vês que esta mulher não diz o que sente? Pois acreditas que isto seja a expressão exata do pensamento dela? Acho a situação excelente para responderes; trata bem o período do teu casamento, e insiste de novo no desejo de contemplá-la.

Amaro Faria aceitou facilmente este conselho; o seu espírito o predispunha para aceitá-lo. No dia seguinte uma nova epístola do fazendeiro da Soledade foi para a caixa do correio. Os pontos capitais da carta foram tratados por mão de mestre. O instinto de Amaro supria-lhe a experiência.

Quanto à noiva, dizia ele que era exato que ia casar-se, e que naturalmente a moça com quem o viu a sua incógnita amadora era Antonina; entretanto, se era certo que o casamento fazia-se por inclinação, não era de estranhar que um novo amor viesse substituir aquele; e a própria demora do enlace era uma prova de que o destino lhe preparava uma felicidade maior no amor da autora das cartas.

Por fim, Amaro pedia instantemente para vê-la, ainda que fosse um minuto, porque, dizia ele, queria guardar as feições que devia adorar eternamente.

A incógnita respondeu, e a carta dela era um composto de expansões e reticências, protestos e negativas.

Marcondes animava o abatido e recruta Amaro Faria, que em mais duas cartas resumiu a maior força de eloqüência de que podia dispor.

A última produziu o desejado efeito. A misteriosa correspondente terminava a sua resposta com estas textuais palavras:

(continua...)

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