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#Comédias#Literatura Brasileira

O caminho da porta

Por Machado de Assis (1862)

Queria que eu própria lho indicasse? Seria trair-me, e tirava-lhe a graça e a glória de o encontrar por seus próprios esforços.

VALENTIM

Onde encontrarei um roteiro?...

CARLOTA

Isso não tinha graça! A glória está em achar o desconhecido depois da luta e do trabalho... Amar e fazer-se amar por um roteiro... oh! que coisa de mau gosto!

VALENTIM

Prefiro esta franqueza. Mas V. Exa. deixa-me no meio de uma encruzilhada com quatro ou cinco caminhos diante de mim, sem saber qual hei de tomar. Acha que isto é de coração compassivo?

CARLOTA

Ora! siga por um deles, à direita ou à esquerda.

VALENTIM

Sim, para chegar ao fim e encontrar um muro; voltar, tomar depois por outro...

CARLOTA

E encontrar outro muro? É possível. Mas a esperança acompanha os homens e com a esperança, neste caso, a curiosidade. Enxugue o suor, descanse um pouco, e volte a procurar o terceiro, o quarto, o quinto caminho, até encontrar o verdadeiro. Suponho que todo o trabalho se compensará com o achado final.

VALENTIM

Sim. Mas, se depois de tanto esforço for encontrar-me no verdadeiro caminho com algum outro viandante de mais tino e fortuna?

CARLOTA

Outro? ... que outro? Mas... isto é uma simples conversa... O Sr. faz-me dizer coisas que não devo... (cai o lápis ao chão, Valentim apressa-se em apanhá-lo e ajoelha nesse ato)

CARLOTA

Obrigada. (vendo que ele continua ajoelhado) Mas levante-se!

VALENTIM

Não seja cruel!

CARLOTA

Faça o favor de levantar-se!

VALENTIM

(levantando-se)

É preciso pôr um termo a isto!

CARLOTA

(fingindo-se distraída)

A isto o quê?

VALENTIM

V. Exa. é de um sangue-frio de matar!

CARLOTA

Queria que me fervesse o sangue? Tinha razão para isso. A que propósito fez esta cena de comédia?

VALENTIM

V. Exa. chama a isto comédia?

CARLOTA

Alta comédia, está entendido. Mas que é isto? Está com lágrimas nos olhos?

VALENTIM

Eu? ora... ora... que lembrança!

CARLOTA

Quer que lhe diga? Está ficando ridículo.

VALENTIM

Minha senhora!

CARLOTA

Oh! ridículo! ridículo!

VALENTIM

Tem razão. Não devo parecer outra coisa a seus olhos! O que sou eu para V. Exa.? Um ente vulgar, uma fácil conquista que V. Exa. entretém, ora animando, ora repelindo, sem deixar nunca conceber esperanças fundadas e duradouras. O meu coração virgem deixou-se arrastar. Hoje, se quisesse arrancar de mim este amor, era preciso arrancar com ele a vida. Oh! não ria, que é assim!

CARLOTA

Sinto que não possa ouvi-lo com interesse.

VALENTIM

Por que motivo havia de me ouvir com interesse?

CARLOTA

Não é por ter a alma seca; é por não acreditar nisso.

VALENTIM

Não acredita?

CARLOTA

Não.

VALENTIM

(esperançoso)

E se acreditasse?

CARLOTA

(com indiferença)

Se acreditasse, acreditava!

VALENTIM

Oh! é cruel!

CARLOTA

(depois de um silêncio)

Que é isso? Seja forte! Se não por si, ao menos pela posição esquerda em que me coloca.

VALENTIM

(sombrio)

Serei forte! Fraco no parecer de alguns... forte no meu... Minha senhora!

CARLOTA

(assustada)

Onde vai?

VALENTIM

Até... minha casa! Adeus! (sai arrebatadamente. Carlota pára estacada; depois vai ao fundo, volta ao meio da cena, vai à direita; entra o Doutor)

Cena V

CARLOTA, O DOUTOR

DOUTOR

Não me dirá, minha senhora, o que tem Valentim que passou por mim corno um raio, agora, na escada?

CARLOTA

Eu sei! Ia mandar em procura dele. Disse-me aqui umas palavras ambíguas, estava exaltado, creio que...

DOUTOR

Que se vai matar?... (correndo para a porta) Faltava mais esta!... (estaca) Não, não se há de matar!

CARLOTA

Ah! por quê?

DOUTOR

Porque mora longe. No caminho há de refletir e mudar de parecer. Os olhos das damas já perderam o condão de levar um pobre diabo à sepultura; raros casos provam uma diminuta exceção.

CARLOTA

De que olhos e de que condão me fala?

DOUTOR

Do condão de seus olhos, minha senhora! Mas que influência é essa que V. Exa. exerce sobre o espírito de quantos se deixam apaixonar por seus encantos? A um inspira a idéia de matar-se; a outro, exalta-o de tal modo, com algumas palavras e um toque de seu leque, que quase chega a ser causa de um ataque apoplético!

CARLOTA

Está-me falando grego!

DOUTOR

(continua...)

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