Por Aluísio Azevedo (1890)
Desse lodo de todos os dias, purificava-se à noite o escultor, indo beijar a filha que ali vivia, guardada por uma velha espanhola, dona Emerenciana.
Assim que conseguia deixar o príncipe entretido nos braços de alguma rapariga condescendente, lá ia, embuçado na sua capa, pedir ao seu anjo da guarda um beijo purificador. Via-a, beijava-a, e voltava a correr aventuras com d. Pedro.
Na cidade, rosnava-se que o Satanás tinha amores ocultos com uma criatura divina que o amava até à loucura; porque, por mais precauções que tomasse o escultor para esconder as visitas noturnas à casinha colonial já começavam a fazer sobre o caso um tecido caprichoso de suposições. D. Bias, que todos sabiam muito amigo do Satanás, tomava uns ares misteriosos quando a esse respeito o interrogavam.
- Então?! diga cá, d. Bias: são amores, heim?
- E que é que tem a arraia-miúda com os amores de um cavalheiro digno? Pois, que sejamamores... E então? O que não se pode dizer, é como a bela se chama. É uma senhora que conhece de cor os nomes gloriosos de cinqüenta avós, e cujo nome não deve, portanto, andar na boca do populacho! Sim! que nós cá, fidalgos de raça, não nos sujamos com mulheres de meia-tigela: queremos sedas e jóias, e beijos fidalgos como nós!
Mas o Satanás deixava que a bisbilhotice de todos se perdesse em conjeturas, e redobrava de precauções.
Naquela noite, foi d. Emerenciana quem lhe veio abrir a porta. O Satanás, seguido pela espanhola, subiu a escada estreita e escura que levava ao sobrado, e entrou na sala, onde a filha, assim que o viu, atirou sobre a mesa o bordado e correu a dependurar-se-lhe do pescoço, num grande abraço carinhoso. Pela dura face do espadachim rolaram duas lágrimas silenciosas e os seus olhos embeberam-se, úmidos e sôfregos, nos dous céus azuis dos olhos da filha.
Branca teria quando muito 16 anos. Era já uma deliciosa mulher, esbelta, talhe gracioso de palmeira, seios tufados provocadoramente e grandes olhos azuis, dando uma encantadora expressão de ternura a sua face pálida e doentia de moça educada com rigor, sem distrações, sem grandes passeios ao ar livre. Mas o que a tornava mais bela, o que constituía o seu maior encanto, eram os cabelos cor de ouro, longos e finíssimos, cabelos que, quando soltos, cobriam-lhe todo o corpo, da cabeça aos pés, como um grande manto tecido de raios de sol.
Educada pela velha Emerenciana, com uma severidade terrível, Branca aos 15 anos ainda tinha uma alma de criança ingênua, que não sabe o que é a vida. Os seus grandes olhos azuis abriam-se curiosamente para o mundo, sem compreendê-lo.
Emerenciana cumpria fielmente as ordens do Satanás, que não queria que Branca chegasse à janela nem saísse à rua, muito cioso da virtude da filha, muito receoso da depravação dos fidalgos portugueses que d. João VI deixara no Brasil com o príncipe regente. De maneira que Branca se fizera mulher entre quatro paredes, tendo como únicas distrações os seus bordados e a conversa com d. Emerenciana, que, apesar do seu papel de vigilante rigorosa, tinha pela moça verdadeira afeição de mãe.
Foi mesmo a instâncias de Emerenciana que o Satanás consentiu que a filha, depois dos 15 anos, desse alguns passeios, raros e curtos, pela cidade. De um desses passeios nasceu para Branca uma nova era de sensações nunca até então experimentadas nem sonhadas pela sua inocência de reclusa.
Foi justamente um ano antes da noite cujos sucessos se estão desenrolando aos olhos do leitor. Era o dia da procissão de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Toda a cidade escovara os fatos, sacudira as sedas, brunira as arrecadas, e abalara para o Outeiro, que às duas horas da tarde, apresentava o mais pitoresco aspecto que é possível imaginar.
Desde o adro da ermida que em 1671 a piedade do ermitão Caminha erigira no alto do Outeiro, até à pequena praça em que vinha alargar a rua da Glória, toda a ladeira se apendoava de arcos de folhagens e bandeirolas. As famílias sentavam-se em bancos toscos, em um grande espalhafato de sedas novas, enquanto, de pé, os moleques e as negrinhas, vestidos de branco, muito sérios, carregavam cestos cheios de pão e galinha assada. Porque a gente daquele tempo sofrera a influência de d. João VI, que não podia ir a festa nenhuma sem fartas provisões de viveres.
Branca fora também ver a procissão, com a velha Emerenciana. E estava muito contente, com vontades infantis de bater palmas, gozando aquele grande prazer do contato da multidão, saciando-se de vida, de barulho, de agitação. Fez-se um movimento no povo. Era a procissão que descia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.