Por Machado de Assis (1868)
- É verdade; as suas casas da Rua da Imperatriz estão hipotecadas; a da Rua de S. Pedro foi vendida, e a importância já vai longe; os seus escravos têm ido a um e um, sem que o senhor o perceba, e as despesas que o senhor há pouco fez para montar uma casa a certa dama da sociedade equívoca são imensas. Eu sei tudo; sei mais do que o senhor...
Vasconcelos estava visivelmente aterrado.
O credor dizia a verdade.
- Mas enfim, disse Vasconcelos, o que havemos de fazer?
- Uma cousa simples; duplicamos a dívida, e o senhor passa-me agora mesmo um depósito.
- Duplicar a dívida! Mas isto é um...
- Isto é uma tábua de salvação; sou moderado. Vamos lá, aceite. Escreva-me aí o depósito, e rasga-se a letra.
Vasconcelos ainda quis fazer objeção; mas era impossível convencer o Sr. José Brito.
Assinou o depósito de dezoito contos.
Quando o credor saiu, Vasconcelos entrou a meditar seriamente na sua vida.
Até então gastara tanto e tão cegamente que não reparara no abismo que ele próprio cavara a seus pés.
Veio porém adverti-lo a voz de um dos seus algozes.
Vasconcelos refletiu, calculou, recapitulou as suas despesas e as suas obrigações, e viu que da fortuna que possuía tinha na realidade menos da quarta parte.
Para viver como até ali vivera, aquilo era nada menos que a miséria. Que fazer em tal situação?
Vasconcelos pegou no chapéu e saiu.
Vinha caindo a noite.
Depois de andar algum tempo pelas ruas entregue às suas meditações, Vasconcelos entrou no Alcazar.
Era um meio de distrair-se.
Ali encontraria a sociedade do costume.
Batista veio ao encontro do amigo.
- Que cara é essa? disse-lhe.
- Não é nada, pisaram-me um calo, respondeu Vasconcelos, que não encontrava melhor resposta.
Mas um pedicuro que se achava perto de ambos ouviu o dito, e nunca mais perdeu de vista o infeliz Vasconcelos, a quem a cousa mais indiferente incomodava. O olhar persistente do pedicuro aborreceu-o tanto, que Vasconcelos saiu.
Entrou no Hotel de Milão, para jantar. Por mais preocupado que ele estivesse, a exigência do estômago não se demorou.
Ora, no meio do jantar lembrou-lhe aquilo que não devia ter-lhe saído da cabeça: o pedido de casamento feito nessa tarde por Gomes.
Foi um raio de luz.
"Gomes é rico, pensou Vasconcelos; o meio de escapar a maiores desgostos é este; Gomes casa-se com Adelaide, e como é meu amigo não me negará o que eu precisar. Pela minha parte procurarei ganhar o perdido... Que boa fortuna foi aquela lembrança do casamento!
Vasconcelos comeu alegremente; voltou depois ao Alcazar, onde alguns rapazes e outras pessoas fizeram esquecer completamente os seus infortúnios.
Às três horas da noite Vasconcelos entrava para casa com a tranqüilidade e regularidade do costume.
Capítulo IV
No dia seguinte o primeiro cuidado de Vasconcelos foi consultar o coração de Adelaide. Queria porém fazê-lo na ausência de Augusta. Felizmente esta precisava de ir ver à Rua da Quitanda umas fazendas novas, e saiu com o cunhado, deixando a Vasconcelos toda a liberdade.
Como os leitores já sabem, Adelaide queria muito ao pai, e era capaz de fazer por ele tudo. Era, além disso, um excelente coração. Vasconcelos contava com essas duas forças.
- Vem cá, Adelaide, disse ele entrando na sala; sabes quantos anos tens? - Tenho quinze.
- Sabes quantos anos tem tua mãe?
- Vinte e sete, não é?
- Tem trinta; quer dizer que tua mãe casou-se com quinze anos.
Vasconcelos parou, a fim de ver o efeito que produziam estas palavras; mas foi inútil a expectativa; Adelaide não compreendeu nada.
O pai continuou:
- Não pensaste no casamento?
A menina corou muito, hesitou em falar, mas como o pai instasse, respondeu:
- Qual, papai! Eu não quero casar...
- Não queres casar? É boa! por quê?
- Porque não tenho vontade, e vivo bem aqui.
- Mas tu podes casar e continuar a viver aqui...
- Bem; mas não tenho vontade.
- Anda lá... Amas alguém, confessa.
- Não me pergunte isso, papai... eu não amo ninguém.
A linguagem de Adelaide era tão sincera que Vasconcelos não podia duvidar.
- Ela fala a verdade, pensou ele; é inútil tentar por esse lado... Adelaide sentou-se ao pé dele, e disse:
- Portanto, meu paizinho, não falemos mais nisso...
- Falemos, minha filha; tu és criança, não sabes calcular. Imagina que eu e a tua mãe morremos amanhã. Quem te há de amparar? Só um marido.
- Mas se eu não gosto de ninguém...
- Por ora; mas hás de vir a gostar se o noivo for um bonito rapaz, de bom coração... Eu já escolhi um que te ama muito, e a quem tu hás de amar.
Adelaide estremeceu.
- Eu? disse ela, Mas... quem é?
- É o Gomes.
- Não o amo, meu pai...
(continua...)
ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.