Por Machado de Assis (1866)
Chegou; dez minutos depois o nº 1441 era aclamado como tendo obtido os vinte contos de réis.
João das Mercês desmaiou.
Deram-lhe os prontos socorros. Tornou a si, apalpou as algibeiras; e achou o abençoado bilhete.
Graças a este recurso inesperado foi à antiga casa de pasto, cuja dívida estava paga, e apresentou o bilhete.
- Tenho aqui a sorte grande; dê-me de jantar que eu depois de amanhã lhe satisfaço a conta do que for.
Foi prontamente obedecido. Jantou como um príncipe. No fim pediu ao caixeiro conhecido, sempre sobre a base do bilhete, alguns charutos que só tinham o defeito de não serem de Havana; no mais não prestavam para nada.
Mas naquela situação tudo o que se fuma é bom. Qualquer homem fumará alegremente couro de boi, se tiver a certeza de que no dia seguinte lhe metem na algibeira vinte contos de réis.
Acabava ele de acender um charuto, quando um sujeito que lhe ficara fronteiro, e tinha ouvido a conversa com o dono da casa, lhe disse com familiaridade:
- Com que então tirou a sorte grande?
- É verdade - respondeu João das Mercês, com a indiscrição de um homem feliz após tantas desgraças -. Tirei a sorte grande e ainda estou admirado disso.
- Por quê? - disse o sujeito, levantando-se com a xícara de café na mão e indo assentar-se à mesa do rapaz.
- Porque fui sempre muito caipora. Nunca comprei bilhete que me saísse sequer o mesmo dinheiro. Desta vez porém acertei...
- Homem, eu também fui sempre caipora. Joguei dous anos com o mesmo número e nunca tirei mais de 40$000 rs. Um dia, porém, saiu o diabo detrás da porta e caiu-me a bicha em casa.
- Sim? Quando foi isso?
- Foi há seis meses.
- Um quarto ou bilhete inteiro?
- Meio bilhete. Recebi dez contos.
- Talvez não precisasse deles...
- Quase que lhe posso dizer isso. Graças a Deus ainda que não viessem os dez contos, tinha com que passar. Acontece-lhe o mesmo?
- Infelizmente não - disse João das Mercês seduzido com a maneira e a confiança do interlocutor.
- Mais uma razão para que eu o felicite.
O desconhecido apertou a mão a João das Mercês e ofereceu-lhe um charuto.
- Estes charutos daqui não prestam, tome este.
João das Mercês acendeu o charuto depois de pôr o seu fora, e reclinou-se sobre a mesa a conversar com o desconhecido.
Ao fim de uma hora saíram de braço dado. O desconhecido disse chamar-se Viana; João das Mercês deu também o seu nome. Saíram como dous amigos velhos. Passearam todo o tempo; Viana levou a benevolência ao ponto de o convidar a tomar um sorvete no Carceller.
Perto da noite, disse Viana para João das Mercês:
- Vou levá-lo até à sua casa.
João das Mercês fez uma careta.
- Isso agora há de ser mais difícil - disse ele depois de alguns instantes.
- Por quê?
- Porque...
- Seja franco.
- Pois bem, meu caro, eu não tenho casa!
- Não tem casa?
João das Mercês contou fielmente ao amigo a sua posição. Viana ouviu a narração com visíveis sinais de simpatia.
- Pois se isto o não incomoda nem ofende, ofereço-lhe por hoje um hospício. Amanhã já não será preciso porque receberá o dinheiro.
- Aceito.
Dirigiram-se para a rua da Misericórdia. Viana morava ali em um primeiro andar mobiliado com algum asseio.
- A casa não está arranjada - disse ele -, mas é porque eu mais me entendo com a desordem que com a ordem.
- Está excelente - disse João das Mercês -. Ah! Meu caro Sr. Viana, creio que sou agora verdadeiramente feliz. No dia em que me entra o dinheiro pela porta, entra-me um amigo pelo coração. Pela porta é metáfora - acrescentou ele rindo.
Viana apertou-lhe a mão comovido.
- Tive um amigo da sua idade; era a mesma alma franca e aberta aos sentimentos generosos; permita-me a ilusão de que o encontrei agora...
- Espero que não seja ilusão - exclamou João das Mercês.
Conversaram até alta noite. À uma hora João das Mercês disse que estava com sono.
- Eu também - disse Viana -. Vamos dormir. Tenho sempre esta outra cama pronta para o que der e vier. Olhe, gosto de acordar cedo.
- Homem, nestas alturas não se me dera acordar mais tarde - respondeu João das Mercês que, como sabemos, adquirira de uma das suas amas o modo de dormir demais.
- É que eu tenho de sair cedo, para levar um papel à estrada de ferro. Às nove horas estarei de volta.
- A minha madrugada será às nove horas.
- Veja lá se perdeu o bilhete.
- Nada, cá está no bolso do colete.
Dormiram.
No dia seguinte, seriam onze horas quando João das Mercês abriu os olhos. Viana ainda não tinha voltado. O rapaz costumava estar na cama acordado ainda um quarto de hora. Ao fim desse tempo levantou-se, lavou-se e vestiu-se.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caipora. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.