Por Machado de Assis (1862)
Primo!
PINHEIRO
(a Lulu)
Cuida das tuas novelas! Vai encher a cabeça de romantismo, é moda; colhe as idéias absurdas que encontrares nos livros, e depois faz da casa de teu marido a cena do que houveres aprendido com as leituras: é também moda. (sai arrebatadamente)
Cena VI
LULU, ELISA
LULU
Como está o primo!
ELISA
Mau humor, há de passar!
LULU
Sabe como passava depressa? Pondo fim a estes amuos.
ELISA
Sim, mas cedendo ele.
LULU
Ora, isso é teima!
ELISA
É dignidade!
LULU
Passam dias sem se falarem, e, quando se falam, é assim.
ELISA
Ah! isto é o que menos cuidado me dá. Ao princípio fiquei amofinada, e devo dizê-lo, chorei. São coisas estas que só se confessam entre mulheres. Mas hoje vou fazer o que as outras fazem: curar pouco das torturas domésticas. Coração à larga, minha filha, ganha-se o céu, e não se perde a terra.
LULU
Isso é zanga!
ELISA
Não é zanga, é filosofia. Há de chegar o teu dia, deixa estar. Saberás então, quanto vale a ciência do casamento.
LULU
Pois explica, mestra.
ELISA
Não; saberás por ti mesma. Quero, entretanto, instruir-te de uma coisa. Não lhe ouviste falar no direito? É engraçada a história do direito! Todos os poetas concordam em dar às mulheres o nome de anjos. Os outros homens não se atrevem a negar, mas dizem consigo: "Também nós somos anjos!". Nisto há sempre um espelho ao lado, que lhes faz ver que, para anjos faltam-lhes... asas! Asas! asas! a todo o custo. E arranjam-nas; legítimas ou não, pouco importa. Essas asas os levam a jantar fora, a dormir fora, muitas vezes a amar fora. A essas asas chamam enfaticamente: o nosso direito!
LULU
Mas, prima, as nossas asas?
ELISA
As nossas? Bem se vê que és inexperiente. Estuda, estuda, e hás de achá-las.
LULU
Prefiro não usar delas.
ELISA
Hás de dizer o contrário quando for ocasião. Meu marido lá bateu as suas; o direito de jantar fora! Caprichou em não levar-me à casa de minha madrinha; é ainda o direito. Daqui nasceram os nossos arrufos, arrufos sérios. Uma santa zangar-se-ia, como eu. Para caprichoso, caprichosa!
LULU
Pois sim! Mas estas coisas vão dando na vista; já as pessoas que freqüentam a nossa casa têm reparado; o Venâncio Alves não me deixa sossegar com as suas perguntas.
ELISA
Ah! Sim!
LULU
Que rapaz aborrecido, prima!
ELISA
Não acho!
LULU
Pois eu acho: aborrecido com as suas afetações!
ELISA
Como aprecias mal! Ele fala com graça e chamá-lo afetado!...
LULU
Que olhos os seus, prima!
ELISA
(indo ao espelho)
São bonitos?
LULU
São maus.
ELISA
Em que, minha filósofa?
LULU
Em verem o anverso de Venâncio Alves, e o reverso do primo.
ELISA
És uma tola.
LULU
Só?
ELISA
E uma descomedida.
LULU
É porque os amo a ambos. E depois...
ELISA
Depois, o quê?
LULU
Vejo no Venâncio Alves um arzinho de pretendente.
ELISA
À tua mão direita?
LULU
À tua mão esquerda.
ELISA
Oh!
LULU
É coisa que se adivinha... (ouve-se um carro) Aí está o homem.
ELISA
Vai recebê-lo. (Lulu vai até à porta. Elisa chega-se a um espelho e compõe o toucado)
Cena VII
ELISA, LULU, VENÂNCIO
LULU
O Sr. Venâncio Alves chega a propósito; falávamos na sua pessoa.
VENÂNCIO
Em que ocupava eu a atenção de tão gentis senhoras?
LULU
Fazíamos o inventário das suas qualidades.
VENÂNCIO
Exageravam-me o cabedal, já sei.
LULU
A prima dizia: "Que moço amável é o Sr. Venâncio Alves!".
VENÂNCIO
Ah! e a senhora?
LULU
Eu dizia: "Que moço amabilíssimo é o Sr. Venâncio Alves!".
VENÂNCIO
Dava-me o superlativo. Não me cai no chão esta atenção gramatical.
LULU
Eu sou assim: estimo ou aborreço no superlativo. Não é prima?
ELISA
(contrariada)
Eu sei lá!
VENÂNCIO
Como deve ser triste cair-lhe no desagrado!
LULU
Vou avisando, é o superlativo.
VENÂNCIO
Dou-me por feliz. Creio que lhe caí em graça...
LULU
Caiu! Caiu! Caiu!
ELISA
Lulu, vai buscar a lã.
LULU
Vou, prima, vou. (sai correndo)
Cena VIII
VENÂNCIO, ELISA
VENÂNCIO
Voa qual uma andorinha esta moça!
ELISA
É próprio da idade.
VENÂNCIO
(continua...)
ASSIS, Machado de. O protocolo: comédia em um ato. Rio de Janeiro, 1862.