Por Aluísio Azevedo (1891)
— Oh! cala-te! Terrível sentimento apodera-se do meu coração! Sinto-me ambicioso e ávido de riquezas! Desejo ser o único dono de todos aqueles tesouros que ali estão acumulados! E esta cobiça me faz estalar o cérebro' Tenho o sangue a escaldar! Tenho febre! Tenho febre!
— Empalideces! Ó Ângelo! Ângelo! não te preocupes com o ouro! Pensa em mim, que sou a tua riqueza!
Ele, afastou-a com o braço.
— Sofro! sofro neste instante! acrescentou. Faz-me mal a vista de tanto ouro! Tenho vertigens! Desejava agora ser mil vezes milionário e ter todas as grandezas da terra!
— Ângelo! Ângelo!...
— Oh! deixa-me! Afinal não passo de um pobre aventureiro, sem o menor prestígio, sem ter sequer um nome de família! não passo de um miserável, sem passado e sem futuro, uma sombra de homem, sem esperanças e sem saudades!
Não sou ninguém! ninguém!
— És muito, és tudo, meu amor, és tudo, pelo menos para mim! exclamou Alzira, tentando inutilmente chamá-lo a seus braços. Que te importam o futuro e o passado, se tens o presente, que sou eu?... Riquezas e grandezas! mas tudo isso não vale o ser amado como eu te amo, meu Ângelo!
— Não! Não! Quero ir morrer lá dentro, afogado naquelas voragens de ouro!
E, desprendendo-se dos braços dela, precipitou-se para a caverna.
Mas uma resplandecente figura, de longas barbas e cabelos de ouro vivo, cortou-lhe a passagem, colocando-se à entrada da grata.
— Era o Demônio de Ouro.
Vinha cintilante da cabeça aos pés, e o diadema, que lhe guarnecia a fronte, refulgia como um sol.
— Para trás! disse ele a Ângelo. E presta toda a atenção ao que vais ouvir!
O ambicioso abaixou o rosto e recuou dominado.
O opulento gênio avançou alguns passos e disse, tocando no ombro da cortesã:
— Alzira! continuas então a vagar durante a noite pelo mundo dos vivos, em vez de jazeres tranqüilamente na tua sepultura?. .
— Cala-te, por amor de Deus, que essas palavras desconsolarão o meu amante, se as ouvir...
— Volta de vez para o túmulo! ...
— Não! A minha sepultura é tão fria e eu morri tão moça... que, à noite, quando os vivos dormem, preciso vir aquecer-me nos braços de Ângelo... Não é assim, meu amor?... acrescentou ela, indo ter com o companheiro.
Este, porém, não respondeu, nem desviou os olhos das riquezas da caverna.
— E ele te ama?... perguntou o demônio à cortesã.
— Adora-me! afirmou a interrogada; e por mim ama a vida e os prazeres.
— Queres dinheiro, já sei, tornou aquele. Entra e enche-te à vontade. Leva o que quiseres; tudo o que levares, voltará multiplicado!
Alzira entrou na gruta. Ângelo quis acompanhá-la; o gênio de Ouro deteve-o de novo.
— Espera! Ouve! disse.
E tomou-o amigavelmente pelo braço, acrescentando: — Que te falta, ambicioso?... Que te falta para seres feliz?... Tens mocidade e dispões da bolsa de Alzira, a quem é permitido fartar as mãos neste inesgotável tesouro! ...
— O que me falta? volveu Ângelo. Falta-me tudo! falta-me o poder absoluto! Queria ser um homem tão poderoso, que a um gesto meu o mundo inteiro se curvasse submisso e escravo!
— Por pouco que desejavas ser Deus!
— Oh, não! Não me fale em Deus! Não lhe invejo a grandeza! Queria uma glória mais humana, queria ter as conquistas de César e Alexandre, ligadas ao genial prestígio de Homero e Dante!
O demônio sorriu, mostrando os seus dentes de ouro luminosos, e replicou depois, fechando de novo a fisionomia:
— Não posso satisfazer tanta ambição!... Conquistam-se tronos, como verá teu espírito no século futuro, porque um homem virá ao mundo, e mesmo em França, tão atrevido, que com a ponta de sua espada descobrirá as régias frontes, para guarnecer a sua cabeça de soldado com uma coroa de imperador... Sim! conquistam-se coroas de rei, mas não se conquista a coroa de louros do mendigo de Tebas, porque essa não cabe em nenhuma outra cabeça. Falaste em Dante!... faze tua alma tão grande como a dele, e serás o mais desgraçado dos homens... Abre-lhe o cérebro, abre-lhe o peito, abre-lhe os intestinos! encontrarás nessas três regiões do pensamento, do amor e da animalidade, o modelo dos círculos do inferno, que ele traçou no seu lancinante poema. E nesses círculos só uma força há que os iguala e nivela, é a dor! A dor de quem pensa, a dor de quem ama e a dor de quem tem fome! Queres ser feliz?... Vive bestialmente! opõe os teus sentidos ao teu cérebro e ao teu coração! Sê bruto, meu filho! A natureza é um pasto de bestas— espoja-te nele, se quiseres gozar a vida!
E tirou da cinta um punhal de ouro, que apresentou ao seu interlocutor, acrescentando:
— Guarda esta arma! Defende-te com ela e vencerás sempre!
Ângelo apoderou-se do punhal.
— Obrigado! exclamou. Obrigado! Com esta arma poderei dominar os meus semelhantes!
— Se foras deveras um ambicioso!... Mas não o és, pois ao contrário principiarias por tentar vencer a mim próprio, para te apoderares dos meus tesouros... Adeus! Não passas de um ambicioso vulgar!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.