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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Eram escritas por ela... por Ambrosina! por aquela bela mulher de cabelos perturbadores, de olhos ardentes e sombrios, de boca vermelha e dentes brancos! Eram dela! E nessas duas palavras estava toda a sua alma e estava todo o seu sangue!

Sim, era Ambrosina, que lá da sua alcova lhe bradava com delírio: "Amo­te! Vem!"

E as duas palavras o invadiram e se gravaram no espírito dele, como dois pontos luminosos, duas estrelas brilhantes, que o iluminavam todo por dentro.

E as duas estrelas iam despejando­lhe no ânimo d’lma uma aluvião de sorrisos de amor, de beijos e de abraços apertados. E quanto mais despejavam, mais tinham elas que despejar. Eram novas carícias, que se atropelavam, que se confundiam, tomando­lhe a respiração, escaldando­lhe os sentidos.

Gabriel soprou a vela, e fez por adormecer. Aninhou­se na cama, enterrou a cabeça nos travesseiros; mas as duas irrequietas estrelas lá estavam a luzir, a luzir, a repetir: "Amo­te! Vem — Amo­te! Vem!"

E de novo lhe perpassavam pelo espírito, em uma torrente vertiginosa, todos os encantos de Ambrosina; interminável e palpitante desfilar de ombros despidos, cabelos soltos, peitos trementes, olhos requebrados e lábios insaciáveis. E tudo isso lhe rodava por dentro pondo nele alucinações de febre e fazendo­o desabar fundo num inferno de desejo vivo, ou alçar­se para o nirvana de um inconscientismo de loucura; mas aqui ou ali, no vermelho ardor da extrema excitação sensual, ou no opalino vácuo do alheiamento produzido pela fadiga da insônia, lá estavam as duas implacáveis palavras de fogo, a saltar num frenesi macabro, a cuspir­lhe na pólvora do sangue faíscas de luxúria.

"Amo­te! Vem!"

Gabriel queria reagir, lutar; voltava­se na cama, procurava amarrar o espírito a outros assuntos; quando, porém, dava por, si via­se inda uma vez calculando como não seria bom tomar Ambrosina nos braços, cobri­la de beijos, amá­la toda inteira, de um só trago como se o desejo dele fosse um mar em que ela mergulhasse nua.

— Diabo! exclamou, saltando da cama. Não posso dormir!

Foi à janela e abriu­a.

— O quê?! pois será possível que esteja amanhecendo?!...

O céu branqueava às primeiras irradiações do sol. A natureza parecia ainda estremunhada de sono. As árvores espreguiçavam­se bocejando, os pássaros cumprimentavam o dia com um hino matinal.

Gabriel olhou vagamente para o espaço. A insondável tranqüilidade da aurora invadiu­lhe o espírito, deixando­lhe a porta escancarada; e logo uma loura imagem, castamente risonha, entrou semcerimônia por ele, a perguntar, cruzando graciosamente os braços:

— Então, meu amigo, quais são as belas cousas que o senhor ficou de dizer­me hoje?... Vamos! Eu de cá não saio sem saber quais são elas...

— Eugênia! exclamou Gabriel, como se a pobre menina estivesse realmente defronte dos seus olhos.

E fechou a janela para não a ver, tanto lhe atormentava a consciência aquela meiga e resignada figura de cabelos louros.

Em vão o esperaria Eugênia à noite desse dia em casa, costurando a um canto da sala de jantar; as tais lindas cousas que Gabriel lhe tinha a dizer, ela nunca chegaria a ouvi­las.

XX

A CASA DOS AMANTES

Às onze e meia da noite, horas marcadas para a entrevista, já Gabriel passeava defronte das janelas de Ambrosina.

Deu meia­noite. Nada.

Gabriel sentia­se impaciente e sôfrego, uma agonia formava­se­lhe no coração, tal era a sua ansiedade. O menor mexer de galhos, o rojar de um inseto, tudo lhe fazia adivinhar um vulto branco, de mulher, que ia atirar­se­lhe nos braços.

Mas o vulto vinha, e ele ficava a imaginar como se apresentaria Ambrosina; quais seriam as suas primeiras palavras, a expressão da sua alegria, o perfume do seu corpo. Ela se lhe atiraria nos braços?... a beijá­lo, a dizer­lhe: "Amo­te! vem... entra para minha alcova! Tu és a minha felicidade, o meu amor. Vem! aqui me tens! Sou tua! ama­me com todo o ardor dos teus vinte e dois anos!?..."

E ele, arrastado pela imaginação aos aposentos da mulher amada, sonhava­se já em todas as atitudes venturosas do prazer, quando uma pancadinha no ombro lhe fez voltar a cabeça para trás. O coração bateu­lhe logo mais apressado. Era ela.

— Oh! enfim! disse Gabriel, sem ter ainda voltado a si de todo.

Ambrosina não deu uma palavra e foi sentar­se, sem o menor sobressalto, em um banco do jardinzinho, ao lado da casa.

Estava toda vestida de negro, ainda por luto do pai. Vinha de galochas, por causa da umidade e para não fazer rumor com os pés, e trazia no peito um ramo de violetas, que espalhavam em redor dela um cheiro bom e penetrante.

Gabriel quis dar­lhe um abraço.

— Devagar!... opôs­lhe a rapariga, safando­se­lhe das mãos. E se continua desse modo, previno­o desde já que me retiro. Se quiser que fique, há de respeitar­me como até agora!

— Mas...

(continua...)

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