Por Franklin Távora (1876)
Uma fogueira foi logo improvisada para terem luz durante a noite e evitar que se aproximassem as onças cujos uivos medonhos começaram a repercutir nas quebradas e gargantas das serras.
Procurava o mancebo galhos secos para entreter o fogo quando, ao pé de uma árvore que se levantava a um lado da clareira, deu com uma tosca cruz de pau cravada na terra.
Era quase noite, e, no meio das sombras crepusculares, confundiu ele ao princípio o emblema da redenção com um tronco de árvore cortada por algum viajante transviado, ou despedaçada pela tormenta.
Quando reconheceu o sagrado emblema, o Cabeleira, suspenso pela surpresa, sentiu-se abalado ao mesmo tempo por uma comoção desconhecida. No lugar ocupado pela cruz tinha ele assassinado um ano antes um marchante de gados para lhe roubar o dinheiro que trazia da feira em Santo Antão.
O bandido voltou o passo atrás horrorizado e correu em busca da moça, gritando, como um menino:
— Luisinha ! Luisinha !…
A moça aflita sem saber por que, lançou-se ao seu encontro e o recebeu em seus braços.
— Ninguém te há de tirar daqui — disse ela, suspeitando que o queriam prender. — Não, não, tu me pertences. Deus ajudou-me a parar-te no caminho do bem. Ninguém tem mais o direito de te perseguir.
— Eu o vi lá outra vez, Luisinha. Ele olhou-me silencioso e triste.
— Ele quem ? — perguntou ela.
— O marchante; o velho a quem assassinei para roubar. Lá está ele com os cabelos brancos ensopados em sangue.
— Meu Deus ! Meu Deus ! — exclamou a moça. — Cometeste ainda um assassinato, Cabeleira ? Meu Deus, quanto sou infeliz !
— Não, não foi agora; faz um ano; foi ali, junto do jatobá. Olha; não vês aquela cruz de pau enterrada no chão ? Foi aí que matei o sertanejo.
É impossível descrever a comoção de ambos. O sítio, a hora, tudo concorria para dar à impressão uma intensidade que ia ao fundo do coração, à medula dos ossos.
— Estou-me lembrando de tudo — prosseguiu o bandido. — Eu estava sentado, com o clavinote atravessado nas pernas debaixo daquele pé de pau. Ouvi as pisadas de um cavalo, e o estratar garranchos e cipós que se quebravam. Metime um pouco mais para dentro, a fim de ver, sem ser visto, quem é que vinha. Eu estava com fome, e não tinha dinheiro nenhum. "Se fosse um homem que trouxesse dinheiro", pensei eu, "estava muito bem !" Neste momento o cavaleiro passou por diante de mim. Trazia chapéu novo, um gibão de pano fino azul, botas lustrosas e esporas de prata; montava um cavalo ruço pombo, gordo e passeiro. Conheci logo que era um marchante. Levei o bacamarte ao rosto, e quando o cavaleiro quebrou ali à direita para tomar o vau do rio, fiz-lhe fogo na cabeça. Corri com a minha faca na mão ao lugar onde ele havia caído. Estava morto; a bala tinha-lhe entrado ao pé da orelha direita e saído acima do olho esquerdo. Ambos os olhos estavam da banda de fora, o cabelo e a barba nadavam em sangue. Tirei-lhe um maço de patacões que trazia em um dos bolsos do gibão, o punhal aparelhado de prata, os botões de ouro, o relógio e as esporas; e meti-me no mato virgem.
Luisinha mal pôde ouvir esta história que foi rapidamente contada, com vivas e medonhas cores.
— Misericórdia, Senhor ! — exclamou ela.
— Ele lá está, Luisinha, de pé, com o chicote na mão, olhando para mim com os seus olhos mortos, à flor da cara.
A moça meditou um momento.
— Vamos — disse por fim, encaminhando-se para a sepultura; — vem comigo.
— Oh! não; aquela visão me aterra. Nunca tive tanto medo, eu que vi imensos cadáveres banhados em sangue aos meus pés.
— O medo passará em um instante, Cabeleira.
— De que modo, Luisinha ?
— Vamos. Vem rezar comigo em cima da cova ao pé da cruz.
— A rezar ?
— Assim que tiveres rezado um Padre Nosso e uma Ave-Maria em tenção do morto, sua alma desaparecerá de tua vista. Vamos, Cabeleira.
O bandido deixou-se ir a modo de arrastado pela moça que parecia, com seu vestido azul e seu lenço branco, passado em torno do pescoço, o anjo da prece na solidão.
Ajoelharam-se ao pé da cruz, Cabeleira com a face quase oculta por seus longos cabelos negros, Luísa com a cabeça erguida, e os olhos postos na frouxa claridade do sol que se desvanecia na abóbada celeste. Defronte deles a cruz ressequida, solitária e muda testemunhava aquela cena com a solene indiferença dos símbolos sagrados que é muito mais expressiva e eloqüente para os seus crentes do que as vozes da mor parte dos sacerdotes da respectiva religião.
— Reza, Cabeleira — disse a moça ao matador assombrado.
— Ai, Luisinha! Não sei rezar! — disse ele com voz tão sentida e magoada que indicou a pena profunda que lhe cortava o coração.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.