Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
As reformas que se fazem por metade, as reformas incompletas foram sempre mancas e defeituosas. É o caso daqueles janotas caricatos que se apresentam de casaca nova, calça em estréia e botins rotos e chapéu velho e amolgado.
Não perca o Governo o ensejo que se oferece para regenerar completamente o nosso Passeio Público. Desaproveitada, desprezada esta ocasião, quando se apresentará outra?
E o tempo urge. O Sr. F. J. Fialho declarou que a sua tarefa se cumprirá a tempo de ser de novo aberto o Passeio Público no dia 2 de dezembro do corrente ano. A administração pública tem obras a executar ali por sua conta, e se, como deve, tomar a peito ainda outros trabalhos, quais os que acabei de propor, ou há de quanto antes meter mãos à obra ou deixará trancado o portão do Passeio no dia 2 de dezembro, e o Sr. Fialho sem poder cumprir a sua palavra por culpa alheia.
Se o Governo se esquecesse, nesse caso, da significação administrativa dada a amanhã, a população da capital ficar-lhe-ia agradecida.
Mas...
Observo agora, e infelizmente bem tarde, que tendo começado este passeio em recordações de anos passados, embora próximos, acabei-o além dos horizontes que nos separam do futuro, fazendo uma ligeiríssima história do jardim público que ainda havemos de ter.
Passeei por um jardim que ainda não existe!
Transpus os limites que marquei aos meus passeios: abusei da paciência dos bons amigos que me acompanharam neles.
Foi um erro, confesso. Estou arrependido, e imponho-me o castigo de perder o trabalho que tive.
Façam de conta que hoje não houve passeio.
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Convento de Santa Teresa
I
NOS meus anteriores passeios já vos ocupei bastante com a longa história de um palácio e de um jardim. No palácio vimos os grandes da terra, um governador, alguns vice-reis, uma rainha, um rei, dois imperadores, princesas e príncipes; vimos a falange lisonjeira e inconstante dos cortesãos, falange que, à semelhança do mar, tem o seu fluxo e refluxo, porém irregulares e só determinados pelos anúncios da próspera ou adversa fortuna da realeza; ouvimos o ruído das festas e, enfim, também os ecos das entrepitosas lutas políticas que vinham retumbar em suas salas.
No jardim vimos o povo, a multidão, artistas ávidos de glória, os folguedos, gozos inocentes, as flores e quadros prazenteiros; ouvimos cantos, testemunhamos os risos suaves da prosperidade, as contrações dolorosas da decadência e a alegria esperançosa da regeneração.
Basta por ora de cenas animadas pelo movimento, pelas solenidades e pelo encanto ardente da vida ruidosa do mundo. Vamos procurar painéis diferentes e sensações de outra natureza em algum daqueles piedosos asilos onde o silêncio é apenas quebrado pelo brando sussurro das orações ou pelas harmonias de um coro religioso.
Quero levar-vos hoje ao mosteiro das freiras carmelitas reformadas, ao retiro melancólico das filhas de Santa Teresa.
Vamos, pois, subir tanto quando for preciso aquele pitoresco monte; não vos guiarei, porém, por nenhuma dessas novas ruas que o trabalho inteligente do homem civilizado tem aberto pelas encostas do morro com um declive suave e insensível, e bordado de casas de campo e de jardins galantes. Terei de contar-vos daqui a pouco uma história do passado, que iria mal se fosse referida por entre as flores e as galas da atualidade.
O monte em que está situado o convento que vamos estudar não é mais o que era dantes, nem no nome, nem nas condições, nem no aspecto. Chamou-se morro de Nossa Senhora do Desterro desde o princípio do século décimo sétimo; no fim do décimo oitavo, porém, trocou esse nome pelo de Santa Teresa, que lhe deu o convento.
No outro tempo – e o outro tempo ainda era apenas há cem anos passados – os grandes da cidade e os negociantes ricos tinham as suas chácaras na então estrada, mais tarde rua de Mata-cavalos, e em outros sítios vizinhos, e o monte de Nossa Senhora do Desterro era uma solidão imensa, e mostrava-se coberto de florestas onde somente penetravam caçadores animosos a quem não faziam recuar os casos sinistros de ataques de quilombolas.
Hoje o morro de Santa Teresa está encravado no seio da
cidade, como uma esmeralda em um enorme diadema. É ainda um saudável e desejado
retiro, por que o rumor incessante da multidão que remoinha no vale não pode
chegar até aos asilos tranqüilos de suas alturas, e porque a sua atmosfera
deleitosa e pura contrasta com ondas quentes e pesadas do ar que no vale se
respira. Não é mais uma solidão como outrora: é ainda um subúrbio da cidade.
Mas a cidade quase por todos os lados o cerca, e vai pouco a pouco subindo por
ele como uma insaciável conquistadora.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.