Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Mas a palavra daquelles homens ?...
— Em tempo de eleições suspendem-se as garantias da honra e da probidade.
Innocencio deixou cahir das mãos o Jornal.
— Apanha o Jornal, disse Geraldo-Risota; apanha-o depressa, e lê a parte official ; anda.
Innocencio leu.
— Esta é ainda melhor!... Carlos Cubas nomeado pelo governo para a commissão que eu pedia !...
— E que tem isso ?...
— Carlos Cubas é de uma completa incapacidade... é quasi um idiota...
— Pateta! já viste algum filho de millionario que não seja sábio ?...
Geraldo-Risota rompeu em gargalhadas estrondosas, emquanto Innocencio lia e tornava a ler o acto official e a Gazetilha, como duvidando ainda dos seus proprios olhos.
Nesse momento baterão na escada, e logo depois um escravo apresentou uma carta a Geraldo e outra a Innocencio.
Geraldo apenas abrio a carta que lhe era dirigida, renovou as suas gargalhadas com tanta força que ficou quasi suffocado.
Innocencio tinha no rosto apallidezda morte.
As cartas erão assignadas por Fagundes, que participava aos seus amigos o proximo casamento de sua filha Christina com Victorino Cubas.
— Foi o vento que tornou a soprar, disse emfim Geraldo.
— Oh ! tres desenganos, tres decepções n'um dia !... Povo, governo e mulher... todos me emganárão !...
— Vai aprendendo, rapaz, vai aprendendo: has de acabar, como eu, não acreditando em cousa alguma desde mundo.
— Não, meu padrinho ; não : o scepticismo é a morte do coração, é a sua gargalhada, é o pranto da alma desfigurado em uma risada de escarneo lançado á face de todos os homens ; o scepticismo é uma luz do inferno que conduz o homem ao desespero ou ao vicio : eu nunca serei sceptico; apezar do povo, do governo e da mulher, nunca serei sceptico.
— Pois em tal caso, meu pobre afilhado, volta para a roça e occupa-te em fazer versos : arranja um mundo a teu geito com o encanto da poesia, e vive nelle para sempre, que é esse o unico recurso que resta aquelles que a despeito de todos os desenganos, ainda têm esperanças e ainda acreditão nos homens.
Geraldo-Risota soltou de novo uma gargalhada homerica.
Mas Innocencio não se confundio; antes levantou com toda aquella nobreza que nasce de uma sã consciencia e da virtude.
O VENENO DAS FLORES
INTRODUCÇÃO
Dizeis que o suicidio é um acto de loucura?... a vossa opinião tem incontestavelmente um duplo merecimento : o da reprovação dessa horrivel offensa das leis natu-raes e divinas, pois que somente a admittis no homem,., cuja razão se aliena ; e o da caridade pelo suicida, porque, reputando-o louco, o tornais objecto apenas da nossa commiseração.
Também eu creio que muitas vezes o suicidio é um acto de loucura; mas quem póde assegurar que em todos os casos o seja?... raciocinaes, apoiando-vos no grito da natureza, que é ouvido e obedecido pelo instincto?... Mas vós chamais a educação uma segunda natureza, e sabeis que ella tem a força e poder de domar, de corrigir, e de corromper o instincto.
Os musulmanos são homens, e a facilidade com que se vião alguns delles recebendo o cordão fatal que lhes era mandado pelo sultão, apertar com as proprias mãos o nó assassino, e a placidez com que alguns outros se suicidarão muito voluntariamente, explicão-se menos por uma cega obediencia, e por um acto de loucura do que pelas idéas do fatalismo e pelas esperanças daquelles gozos sensuaes e eternos que a sua falsa religião estabeleceu e promette.
Lastimais a repetição dos casos de suicidios que ultimamente se têm observado?... Não ha lastima que mais justa seja; não sei porém o que mais se deva lastimar, se os suicidas, se a sociedade.
Lastimemos pois a sociedade, além de lastimarmos os suicidas : lastimemol-a, menos ainda pelo funesto exemplo que estes lhe deixão, do que pelos vicios profundos a corrompem, e que são os preparadores do desespero que determina o suicidio.
Admittindo mesmo em hypothese que o suicidio seja sempre um acto de loucura, é facil de provar que a depravação dos costumes e uma educação defeituosa e ruim podem levar o homem, por ura caminho em cujo termo não poucas vezes a razão chegue a alienar-se, e o abysmo do suicídio abra-se para receber o desesperado.
Porque a corrupção e a educação mal regrada não hão de produzir, embora por idéas e principios diversos, o mesmo resultado que produz a religião dos mahometanos?...
Fallarei especialmente a respeito do que se passa entre nós ; limitar-me-hei por agora a uma unica, mas sem duvida principal consideração.
Como preparamos nós a mocidade de ambos os sexos ?... O
Estado e os pais de familia cuidão um pouco em dar instrucção aos meninos e
jovens ; mas da sua educação e particularmente da educação religiosa tratarão
elles tanto como devião ?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.