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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Dir-se-ia que se tinha operado a misteriosa transfusão d’alma do anjo na grosseira bestialidade do mostrengo. Quando nos acessos epilépticos, estrebuchando o infeliz em medonhas contorções, não bastavam as forças de três homens possantes para sopear os ímpetos formidáveis, nem as mais enérgicas aplicações para superar a crise violenta, o simples toque dos dedos de Berta ou sua fala maviosa, subjugava aquele furor e aplacava logo a horrível convulsão. 

 

XXVII 

A cotia 

 

  Percebendo que a fadiga abatia as forças de Brás, suspendeu Berta a lição. 

  Descanse agora! 

  Ajoelhado como estava, deixou-se Brás cair sentado sobre os calcanhares; de corpo bambo, os braços pendurados, e o queixo caído, quedou-se o estafermo em pasmatório, com os olhos dormidos no gentil semblante de Berta. 

  Ocupada com sua tarefa, já não lhe dava atenção a menina, cujo pensamento andava agora enleado em outras cismas. 

  Nisso apareceu Miguel, que voltava afinal, e, procurando Inhá pela casa, veio a sair na porta do oitão. 

- Sempre chegou?... disse Berta a rir. 

- Não faço falta, respondeu Miguel com um motejo tristonho. 

- Mecê está hoje tão macambúzio, nhô Miguel! replicou a menina galhofando com a intenção de desanuviar o semblante do moço. 

- Nem sempre faz bom tempo! Às vezes amanhece a gente com uma cara, que mete medo aos outros, e os obriga a se esconderem! Não é assim? 

  Com a alusão de Miguel atalhou-se Inhá, enrubescendo de leve, pois logo acudiu-lhe a sua graciosa petulância: 

- Ora que caçador!... exclamou a rir. Não deu com a pista!... 

- Não quis, e para não agoniá-la. 

- A mim? 

- Cuida então que eu não percebi desde muito tempo? Quando você vai ver a Zana, não gosta que ninguém a acompanhe! 

- Ah! descobriu isso? Está muito adiantado! Berta com um modo agastado e concentrando-se em sua tarefa. 

- Zangou-se? 

- Eu não ando espiando o que os outros fazem! 

- Não faça caso do que eu disse, Inhá! Desculpe!... tornou Miguel enleado e aflito. 

  Berta, de todo absorta no conserto da roupa, parecia ter esquecido a presença do colaço, o qual a contemplava com um enlevo apaixonado, que rompia dentre a expressão abatida de sua figura. Pesaroso por ter ofendido a menina e acanhado com a presença dela, queria falar, e não achava a palavra para desvanecer o enfado, que havia causado. 

  Brás, que desde a chegada de Miguel se agachara sobre as patas como um cão de fila, rosnava surdamente, saltando com o olhar do semblante de Berta ao vulto de Miguel, como se esperasse um gesto da senhora para filar a presa e abocanhá-la.  

Os agastamentos de Berta eram cóleras do colibri, que tão depressa belisca e arrufa-se, como cintila aos raios do sol, feito um rubi celeste. 

  A cabeça inclinada sobre a costura ocultava-lhe o rosto que Miguel supunha fechado ainda pela zanga, quando já dos cantinhos da boca lhe estava borbulhando um sorriso zombeteiro que lhe salpicava as faces de petulante malícia. 

Relanceando uma olhadelha de soslaio, percebeu o pesar de Miguel e arrependeu-se de se haver agastado com ele; mas conteve-se para fazer-lhe pirraça e gozar por algum tempo ainda do enleio do moço. 

  Desde alguns instantes ouviam-se uns guinchozinhos, como de preá, mas abafados; e apesar da curiosidade de saber donde partiam, a menina não levantava a cabeça. 

- Aqui está o que lhe trouxe, Inhá, animou-se a dizer Miguel tristemente.

Metendo a mão por baixo do pala, tirou uma linda cotia, que tinha as patas amarradas para não fugir. 

(continua...)

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